Bon bini a Bombinhas!!!
O K42 era um sonho antigo. Desde quando ouvi falar de uma maratona em trilha em Villa La Angostura, na minha viagem de lua-de-mel, sonhava com uma prova dessas. Em 2009, esse mesmo K42 aportou no Brasil, em Bombinhas e eu não pude ir. E não pude ir também no ano passado. Mas neste ano deu pra planejar direitinho e, para ajudar, a Trilopez formou um grupo grande para viajar pra Santa Catarina, pra deixar as coisas ainda mais divertidas não só na prova como nos treinos.
O que atrapalhou um pouco, no entanto, foi a sensação de falta de rendimento nos treinos. Não perdi peso, não ganhei performance e ainda tive vários treinos complicados, com algumas lesõezinhas e a asma pegando no inverno rigoroso deste ano. Aliás, registrando aqui, 8km na terça-feira, quase morrendo de hipoxia asmática!! Fui sexta-feira para Bombinhas, inclusive, com a rinite em crise e com dificuldades para manter meus brônquios abertos. O negócio era tentar só terminar. O lado bom é que em uma prova dessas a premissa é realmente essa, a de “só” terminar, sendo impossível pensar em um determinado resultado ou mesmo em um pace constante. Subir as trilhas do jeito que dá, descer do jeito que pode, e correr onde dá pra correr (quando se consegue).
Na semana pré-prova o clima dava medo. Teve enchente no sul do país e chegou a nevar na Serra Catarinense. Agosto é um mês frio, mas isso é exagerado até para os catarinenses. Por sorte a previsão era de uma prova com céu aberto, embora com expectativa de vento e frio. E por mais sorte ainda, largamos realmente com o céu aberto, mas sem tanto frio. Tanto que já deixei os manguitos de lado no 1° quilômetro. E logo depois o sol daria as caras num dia perfeito, ensolarado sem estar quente.
Essa corrida prometia em termos de história pra contar. Assim que chegamos à largada, vimos o Paulinho Navarro dando uma longa entrevista para a ESPN Brasil. Logo depois o cara tá vestindo um capacete com uma câmera na cabeça... formiga atômica, correspondente de guerra! Ele entregaria o equipamento pro repórter no 4° km, mas eu cheguei a achar que iria fazer a prova inteira daquele jeito...
Saí bem devagar, tirando foto, num ritmo bem mais lento que o normal. Tanto que alcancei o grupinho da Ana Miriam, Marcia, Cassiano e Day só lá pelo km 04. A Edith ainda seguia um pouquinho à frente, mas o resto da turma já estava espalhado. Paulinho Lacerda brigando pela ponta. Navarro, Alê, Bia, Dalva e Grazi também bem à frente da gente. E atrás a Rose, o Giglio e o Brunetti. Na primeira subidona pesada, o Cassiano desgarra, e o Brunetti com suas pernonas compridas nos alcança, só na caminhada. Eu, a Marcia, a Ana Miriam e a Day tentávamos manter o ritmo do gigante.
Alcançar o Brunetti só mesmo na trilha, na descida. Aí quem começou a voar, despencando ladeira abaixo era a Márcia. E eu tentando acompanhar. A preocupação da Márcia era não perder a Ana atrás dela, mas na trilha, pra baixo, nem se ela segurasse o ritmo a Ana Miriam chegava. A mulher voa!

Aos pouco, nesse ritmo feroz, eu e a Marcia alcançamos a Bia. Coitada, sofria com bolha já no 10ºkm, mas foi guerreira e continuou. A Dalvinha a gente alcançou numa prainha bonita. Logo depois, um pouco mais de trilha e a praiona de Zimbros, de 5km de extensão. Ali, no plano, passei muita gente e trouxe a Márcia na cola até bem perto do 21ºkm, quando a Ana Miriam revezaria com o Du Pastor e a Márcia seguiria com o bofe dela. Bem pertinho desse posto da meia encontrei a Cynthia, mas ela logo foi embora, enquanto eu fiz um mega pit-stop de 5 minutos. Me enchi de melancia, suquinho e o escambau, até porque ali começava a parte difícil da prova. E olha que até então não tava nada fácil... 2h40 minuto para 21km!



De cara a gente sai da praia e enfrenta um escadão. Depois, uma trilha fechada, um sobe-e-desce infernal. Umas vistas bonitas, uns escorregões dos infernos numas pedras... deixei a Márcia e o Pastor pra trás e fui na minha prova. A gente subiu pra caramba e de repente, um ladeirão pra baixo, em piso bom, onde dava pra correr. Eu sou ruim pra cacete pra descer em terreno irregular, mas no plano eu soltei o corpo e fui embora. Alcancei a Cynthia de novo, passei pelo fotógrafo Pinguim e por mais um carrilhão de gente.


Chegamos numa outra praiona e aí já não tava tão firme, mas continuava correndo. Tanto que surpreendentemente encontrei o Oswaldo ali. Ele, justo ele, cabrito montês, tinha quebrado. A Cynthia tava logo atrás e iria alcançá-lo. E ele ainda me diz que o pessoal tava logo à minha frente. Me enchi de vontade, olhei no relógio e achei que dava pra terminar em 5h30 e quem sabe alcançar alguém. Passei muita gente que só caminhava por ali. No final dessa praiona, encontro o
Harry e começamos uma das piores subidas da prova, muito íngreme, parecida com a primeira de todas, mas bem mais doída com o corpo cansado. E o
Harry ainda fazia questão de lembrar que o pior ainda vinha. Já tinha esquecido essa história de alcançar Cassiano, Edith ou Grazi.


Mais uma praia, um retornão e asfalto. Mas não era bom não, uma estrada em subida que desanimava só de ver. Sim, a segunda metade era muito pior que a primeira MESMO! Sobe aqui, desce ali e chegamos em na praia de 04 ilhas, onde a gente teria que ir para a direita, nos enfiar numa trilha na península, sofrer pra diabo mas curtir uma das melhores vistas da prova, xingar o cara do retorno que ficava controlando o nosso número e voltar para a mesma praia no sentido oposto. Ok, terminar em 5h30 não dava, mas acho que 5h45 eu garantia.



E pra que? Pra chegarmos numa outra trilha fechada, complicada até alcançarmos o temido costão de pedras. Que nem era tão ruim assim, já que o clima tava bom e seco. As pedronas, secas, estavam fáceis de serem transpostas. O difícil é que pra sair dali tinha uma trilha que... pelamordeDeus, impossível. Uma subida infernal, o pior trecho da prova e no km 39!! Precisava daquilo?? Tinha que parar pra descansar segundando nas árvores pra não escorregar lá pra baixo. Nem se eu estivesse novo e inteiro conseguiria fazer aquilo sem parar. Imagina naquela altura do campeonato! Ia fechar em 06h00 mesmo, ok, tava conformado...
Pior é que os requintes de crueldade não acabaram ali. Ainda tivemos um retorninho na Praia da Sepultura que só serviu pra cansar a gente. Ia, voltava, pra que? Ahhh... bom, esquece esse negócio de terminar a prova em 06h00! Cruzando a linha de chegada tava bom...
Mas isso ninguém mais tirava de mim: umas prainhas aqui e ali, tudo plano e fim! Ver aquela escultura de sol da Vila do Farol de volta à Praia de Bombinhas foi uma das coisas mais lindas do mundo. Chegar correndo era questão de honra! 06H05minutos e uma vontade louca de... chegar logo e beber um treco gelado, porque a água do camelback parecia chá!!


Quem já tinha chegado, tava lá, feliz da vida, descansando e comemorando. Nosso coach Paulinho Santana que foi o 2º colocado entre todos no K12, a Isabel que também foi superbem nessa distância e a Ana Miriam, que fizera a primeira perna do revezamento. O Paulinho Lacerda foi o 9º no geral e 1º colocado na categoria. O Navarro, o Alê e a Grazi, como sempre, super bem. A Edith, pra variar, pódio na categoria. O Cassiano uns 20 minutos na minha frente. Logo depois que eu cheguei vieram a Márcia e o Pastor, pertinhos, uns 3 minutos atrás, junto com a Cynthia e o Oswaldo, recuperado. Aí relaxei, comi mais melancia (devo ter comido uma inteira, durante a prova toda) e fui esperar o pessoal que veio chegando aos poucos. Dalva inteirona, Bia, guerreira chorando de dor e desabando na chegada, Day e Rose com um sorriso de orelha a orelha, Giglio pegando pódio na categoria e logo depois o Brunetti, feliz, mas com uma cara de quem queria descer a porrada no argentino que inventou aquela subida depois do costão de pedras...

Ufa! Que prova! Certamente a mais bonita do Brasil. Difícil vai ser achar uma outra tão bonita no mundo. Só no comecinho a gente passa por uma regiãozinha meio feia, um bairro mais carente de casinhas feias.*** De resto, é só natureza, praias lindas, trilhas maravilhosas, um desbunde.
*** trecho censurado pelo comentador "Ice".