sábado, 2 de janeiro de 2010

São Silvestre e os brasileiros

Este é o primeiro post oficial deste blog, já que os demais são os relatos antigos de provas anteriores. E começamos com uma prova da qual não participei, mas que é a rainha das corridas de rua do Brasil. A velha São Silvestre, que me motivou, como já motivou muitos outros corredores, a começar a correr.

São Silvestre não é mais um corrida que queira correr. É muito cheia, muito quente, meio desorganizada, a logística para chegar e ir embora, apesar do metrô, é meio ruim e tem o lance do Reveillon. Além disso, tem a terrível nuvem de vapor de mijo, já que o pessoal que garantiu um lugar lá na frente, por vezes com horas de antecedência, não perdem o lugar por causa desse detalhe fisiológico. Mijam lá mesmo. E com o asfalto quente, o cheiro sobe e empesteia tudo! São Silvestre foi um sonho realizado. Hoje é só uma prova muito cheia.

De qualquer modo, assistir na TV é legal, não fosse o fato de a TV manipular horários a seu bel-prazer, em prejuízo dos corredores, só para acertar sua grade.

Nos anos anteriores, o pessoal andara falando que a São Silvestre não atraía mais grandes corredores internacionais, que tinha virado uma corrida brasileira comum e que tinha uma elite de segunda linha. Em contrapartida, os brasileiros de elite argumentavam que era injusto estrangeiros virem para o Brasil só para ganhar prêmios e que isso desvalorizava o atletismo brasileiro. Pois bem, para mim, o intercâmbio sempre foi essencial para o aperfeiçoamento do esporte em nível mundial. Não adianta muito você ser um dos melhores do Brasil e sequer figurar na elite mundial. Lógico que você, como atleta, tira o seu sustento daí, mas para quem almeja algo mais, não dá para ficar restrito a um pensamento regional.

Neste ano, a São Silvestre realmente deu uma melhorada em seu line-up. O tricampeão Robert Cheruyot vinha com um belo currículo, como vencedor do Circuito das Grandes Maratonas, e o tetracampeonato de Boston. James Kipsang Kwambai, vencedor do ano passado, é um maratonista de 2h04min. Dois quenianos da elite mesmo. Além disso, tínhamos atletas que não tinham um currículo tão impressionante a nível mundial, mas que dariam muito trabalho, como o Elias Chelimo, elite B do Quênia e vencedor da Maratona de São Paulo, os também quenianos Stanley Biwott, Kipkemei Mutai e Nicholas Koech, com vitórias em outras provas brasileiras, e Martin Sulle, da Tanzânia, com meia-maratona abaixo de uma hora. Atletas novos e promissores, buscando experiência, também estavam presentes, como Ibrahim Jeilan, etíope campeão mundial júnior dos 10.000m e Marco Joseph, também da Tanzânia. O Mutai, além de suas vitórias, é conhecido por um fato triste: o seu irmão Chemwolo, que já tinha um pódio na SS e algumas vitórias no Brasil, morreu neste ano em um acidente de carro no Quênia, causando bastante comoção, já que ele era bastante conhecido aqui.

Pelo Brasil, a maior estrela e o único com um currículo comparável a eles, Marílson Gomes dos Santos, estava fora. Teríamos a presença do ex-campeão Franck Caldeira, do Clodoaldo Gomes, que já tinha alguns pódios na SS, Giomar Pereira da Silva, campeão do Circuito Brasileiro de corridas de rua, e outros atletas já conhecidos, como o Raimundo Nonato, melhor brasileiro no ano passado, o Chiquinho, que já venceu provas difíceis como o Desafio Mata Atlântica A Tribuna, "escalando" o Estrada Velha de Santos.

Entre as mulheres, a concorrência era um pouco menor. As ex-campeãs Olivera Jevtic, da Sérvia, Derartu Tulu, etíope campeã de Nova York, e Margareth Okayo, do Quênia, iriam disputar com as quenianas Pasalia Chepkorir, campeã da Pampulha e Maurine Kipchumba, vencedora da Zumbi dos Palmares. Pelo Brasil, as ex-campeãs Lucélia Peres e Maria Zeferina Baldaia, a maratonista olímpica Marily dos Santos, e Cruz Nonata, campeã brasileira dos 5 e 10 mil metros.

Entre as mulheres, o domínio da prova foi completo pela Pasalia Chepkorir, que não deu a menor chance às adversárias. Em segundo, a sérvia Olivera Jevtic, seguida pela melhor brasileira, Marily, pela Maria Zeferina e pela Cruz Nonata, completando um pódio com 3 brasileiras. Um belo resultado, ficando à frente de uma das maiores corredoras de fundo do mundo, a Tulu.

Nos homens, não teve muita surpresa. Um início forte de alguns atletas brasileiros que buscavam um bom tempo para 5 mil metros, a surpresa veio logo a seguir, com um sprint inicial do tanzaniano Martin Sulle, ele foi engolido pelo pelotão no final do Minhocão e ficou bem para trás, quebrado. A partir daí os quenianos dominaram a prova. Dos brasileiros, o único que figurava no pelotão no começo da prova era o Franck Caldeira, mas ele também ficou para trás. No pelotão, chamava a atenção o único corredor branco, Diego Colorado da Colômbia. Na Rio Branco o Kwambai começou a puxar e não foi acompanhado pelos outros, apesar do esforço do Chelimo, do Cheruyot e do próprio Colorado. E a prova acabou se definindo ali, com Kwambai marcando um mediano 44min40s, seguido pelo Chelimo. Meio minuto atrás, o Robert Cheruyot cruzou pouco à frente do Colorado, que foi acompanhado no pódio pelo conterrâneo William Naranjo, um ótimo resultado para a Colômbia, de muita tradição na prova (Victor Mora dominou a SS nos anos 70).

Para os brasileiros, um resultado pior do que em 2008. Clodoaldo Gomes chegou em 8º e o Chiquinho em 9º. O tempo do Clodoaldo foi substancialmente pior do que ele próprioa já havia conseguido quando figurara em 2º lugar na SS. Já para o Chiquinho, um bom resultado.

Não tem muito o que falar: só 2 brasileiros entre os 10 primeiros. Apesar do boom das corridas de rua no país, isso não tem se refletido em resultados mais consistentes em nível mundial. Por enquanto, continuamos vivendo de resultados de um destaque único, que é o Marílson Gomes dos Santos, e da memória dos aposentados Vanderlei Cordeiro e Ronaldo da Costa. A São Silvestre não é uma boa prova para se avaliar o estágio do atletismo de fundo do país, já que é uma corrida fora de temporada, em um percurso difícil pelo calor e pela altimetria. De qualquer modo, os seus resultados só comprovam o que sabemos: nossos abnegados e esforçados atletas de elite, com as exceções de praxe, estão muito longe da elite mundial, e para o lugar do Marilson ainda não apareceu ninguém para substitui-lo. O Franck Caldeira, que era o atleta jovem mais promissor, tem se mostrado ainda muito inconstante e não conseguiu uma progressão de resultados e marcas para se destacar.

A organização da prova ainda não divulgou os resultados, então aguardo ainda os resultados dos amigos que participaram da SS neste ano.

Os destaques da prova, para mim, foram: a) as boas colocações das brasileiras no pódio; b) os bons resultados dos colombianos Colorado e Naranjo; c) o amplo e completo domínio da prova pela Pasalia Chepkorir , como já fizera na Pampulha. Jovem, pode se tornar um dos grandes destaques mundiais no fundo feminino.
 

2 comentários:

Jorge disse...

Já se foi bom tempo de correr a S. Silvestre caro amigo Nishi...Pois nos bons tempos aureos dela eu não corria que pena que eu perdi esta chance por não dar valor as corridas, mais corri ela 4 vezes de 2002 a 2005 e sendo nesta última foi o meu melhor tempo foi de 58 minutos, mais paguei um preço danado para fazer este belo tempo, deixei esposa e filha no hotel e fui para a largada e cheguei as 13 horas com uma bolsa com lanches e água, fiquei quase 5 horas em pé e as vezes quando dava para sentar um pouco, foi muito cansativo mais saí na frente e valeu a pena, isso quando era 15 mil e alguns pipocas, hj com 21mil e milhares de pipocas para quem quer fazer um tempo bom não dá...Vc disse sobre a transmissão da S.Silvestre, para mim esse ano foi uma porcaria pois a tv plim plim trnamistiu 99% da elite correndo e quando os 5 primeiros da geral (masculino e feminino) chegaram esta droga da globo interrompeu a transmissão e nem passou a premiação no pódio não sei se aí em Sampa passou, isso é uma falta de desrespeito com os corredores amadores pois somos nós que fazemos a festas e não os corredores de elite, isso tem que mudar, outra falta de desrepeito foi que a globo/yescom adiantou em alguns minutos o horário da largada e foi um tal de corredores largando atrasado que só vendo...Outra notícia que fiquei sabendo é que a yescom quer mudar o percurso da S.Silvestre, querem acabar com a Av.Paulista...brincadeira né...
Mais valeu...

Lhe desejo um bom final de semana e boas corridas,um abraço.

JORGE CERQUEIRA
www.jmaratona.blogspot.com

Ricardo Nishizaki disse...

Eu também gostaria de correr a SS no Reveillon, mas... e eu costumo assistir na Gazeta justamente porque a cobertura é um pouco menos pior. Mas poderiam transmitir por um canal por assinatura, pra ter mais liberdade de cobertura e não se espremer na grade de programação.