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quinta-feira, 23 de abril de 2026

UD 55k Bertioga 2026

Enfim, de volta a uma ultramaratona, depois de quase 5 anos. Escolhi a UD 55 Bertioga porque pela distância não muda tanto a rotina de treino, só pega um pouco mais de volume, porque também conheço a organizadora UltraRunner eventos, com quem já corri várias ultras, e também porque o relevo seria bem tranquilo e plano, 55km de plano na areia dura das praias de Bertioga.

O único problema é que praia geralmente é mais quente e mais úmido, o que dificulta um pouco, ainda mais com uma largada às 08h00. Além disso, mesmo sendo praias de areia dura, o piso segura um pouco mais do que o asfalto, o que te torna um pouco mais lento. Para compensar, o impacto nas articulações é menor, tornando dispensável um tênis mais alto e de amortecimento.

O ciclo foi ótimo, mas tive alguns problemas no final da preparação. Família, basicamente, o que me fez ter que viajar no feriado de páscoa, final de semana anterior à prova, sem poder treinar direito, e também a dificuldade na sexta-feira, quando tive que levar o filho no futebol à noite. Cheguei em Bertioga para dormir quase meia-noite e sem jantar, na véspera da prova. Bom, pelo menos a prova não larga tão cedo...

Pelo clima da sexta e previsão do tempo, estava otimista, dia meio nublado, com temperaturas mais amenas e até uma chuvinha pra refrescar. Só que na prática, o 11 de abril amanheceu sem nenhuma nuvem no céu e um solzão lindo pra queimar a pele. Wear sunscreen!!!

Antes de largar, encontrei a velha guarda da Trilopez: Alaelson, Alex Greif, Diego e Dalvinha. Só que ninguém iria para a distância maior. Largada em paz, saindo bem levinho, controlando o ritmo para 6m30-6m50/km, sem fazer força e tentando correr tangenciando a linha da água, já que algumas das praias percorridas são curvas. Por que a galera insiste em fazer o trajeto mais longo? Medo de molhar o tênis. Inevitável nessa prova, já que passamos por diversos canais, além de um riozinho pequeno entre Indaiá e Riviera de Sâo Lourenço, e um rio grande, o Rio Itaguaré, cuja travessia seria feita em cima de caiaques abertos puxados por staffs.




O retorno, lá no rio de Guaratuba, bateu no km 29. Lógico que antes disso eu já vi muita gente voltando e deu pra perceber que não tava lá numa boa colocação na prova para almejar qualquer pódio na categoria. Com o acúmulo de quilometragem, a confirmação de quebra de expectativa, o sol ardendo pra cacete e o pé direito doendo no tornozelo, passei a seguir bem mais tranquilo, só voltando para completar a prova, até porque embora já tivesse passado da metada, cada quilômetro a partir dali parecia estar duplicado, triplicado, quadruplicado...


A volta passando pela Riviera, já depois do km 40, foi especialmente chata. Isso porque tinha muita gente na praia, naquele dia de sol lindo. Era criança passando correndo, bolinha de frescobol voando, bola de futebol quicando aqui e ali. E o sol ardendo, e o raio do próximo posto que não chegava nunca naquele ritmo mais lento. 

Mas finalmente cheguei. Tornozelo direito doendo pra caramba, uma tendinite que apareceu por pisar torto, pra dentro, e um certo cansaço, mas nada de absurdo se pensar que tinha corrido 56 km naquele solzão todo. 7h18, mais ou menos uns 50 minutos acima do que esperava no melhor panorama, mas justificado pela volta num ritmo muito mais tranquilo. 

Foi bom? Foi legal, um perrenguinho bacana. 7º em 13 na categoria, os melhores fizeram abaixo de 6hs, eu não ia conseguir pegar mesmo. O vencedor fez em 4h58m e eu voltei para São Paulo com o estoque de Vitamina D lotado para pelo menos um mês, tá louco!! E com isso completo a minha 49º maratona/ultramaratona. Rumo aos 50, espero que ainda com 50 (anos)!!

domingo, 28 de novembro de 2021

Ultra 6hs Indaiatuba

Fazia muito tempo que não corria uma Ultra. Para ser exato, desde que o Rafael Kenzo nasceu. Depois disso corri algumas maratonas, mas o ritmo de treinos saiu um pouco fora do eixo, os hábitos mudaram. E mudaram mais um pouco ao sair do escritório. E mudaram mais um poucão depois do início da pandemia. Enfim, desde a Bertioga-Maresias de 2017 eu não passava dos 42km. Talvez estivesse na hora de mudar.

Não que tenha planejado com muito afinco isso. Na verdade, pensei em Indaiatuba mais por ser uma prova de tempo, onde se tudo desse errado eu simplesmente pararia, sem ter o compromisso de cumprir uma determinada distância (sob pena de desistir). Uma prova mais manejável mentalmente e com um suporte um pouco mais fácil. Em contrapartida, como não tive planejamento, não fiz ciclos de treino, simplesmente continuei rodando todo dia, ganhando volume e no máximo fazendo alguns testes nos longos, corrrendo com bpm baixo para sentir como o corpo processava o desgaste nessas condições.

Em 2020 a prova de Indaiatuba foi complicada por causa do calor e pelo fato do circuito quase não possuir sombra, e eu estava meio que me preparando para isso, para tentar apenas passar a marca da maratona. Mas o dia da prova surpreendeu, temperatura amena para a região, até com algumas rápidas gotejadas durante a prova. Também teve um pouquinho de sol, mas no geral a temperatura oscilou entre 20 e 25 graus e pouco sol, embora com muito mormaço, como percebi pelo bronzeado da pele depois da prova.

Além das 6hs havia também uma provinha de 10km, uma de 21km, 12hs e os 100km que eram classificatórios para o Mundial, sendo que o percurso era diferente para os 100km (volta de 3km só no plano). O nosso era feito de voltas de 5km com uma subida boa e uma descida também boa no meio da volta. Saí num ritmo um pouco mais forte do que imaginei, rodando entre 6m00 e 6m05/km, mas encaixadinho, com sensação de esforço tranquila, embora o bpm um pouquinho mais alto do que imaginava. Nos primeiros 30km de prova tive a companhia do Rodrigo Tandaya e isso ajudou muito a distrair e passar o tempo.

Após os 30km o Tandaya ficou e depois ficou claro que o ritmo tava bom para mim, mas um pouco mais forte do que deveria para ele, que acabou passando um pouco mal. Com o calor aumentando um pouco e o cansaço começando a aparecer, lembrando ainda que aquela era a primeira vez no ano que rodava mais de 25km, o ritmo começou a cair levemente. Me mantive correndo o tempo todo até o km 48 e somente ali, onde a volta oferece a subida, passei a caminhar na inclinação. Quando cruzei o km 50, deu para perceber que não seria possível chegar aos 60km, já que faltavam uns 45minutos de prova. Então completei essa última volta de 5km intercalando caminhada e trote, apenas para terminá-la dentro do tempo limite de 6hs, até porque não brigava por classificação nem nada.

Terminei os 55km com 5h59, num ritmo médio total de 6m29/km, muito melhor do que a minha expectativa, e acabei fazendo minha melhor marca numa prova de 6hs (na verdade na outra que fiz, alcancei 54km). Foi ótimo, embora os 10, 15 minutos pós-prova não tenham sido muito bons no quesito sensação (tontura, cansaço, sede infinita e muita dor muscular...)

Mas me recuperei rápido, voltei pra SP tranquilo e as dores musculares pós-prova, embora previsíveis, foram até menores do que imaginava. Esses tais de tênis de placa de carbono realmente são uma beleza...








segunda-feira, 21 de setembro de 2015

CCC - Ultra Trail du Mont Blanc

Em 2012 eu tinha tentado e acabei desistindo numa prova extremamente gelada, com neve e chuva o tempo inteiro. Camelei 3 anos fazendo pontos e torcendo em sorteios ate conseguir ir de novo para o CCC da Mont Blanc e resolver essa questão.

Pelo menos achava isso.

Pois é, tudo o que eu queria é que não estivesse aquele frio, aquela chuva e aquela neve que me detonaram durante a prova de 2012. E de uma certa forma meus desejos foram atendidos. Mas nessas horas é que eu percebo como a gente nunca está satisfeito...

Pois é, dessa vez a Mont Blanc 2015 não teve nada de chuva (exceto a largada do PTL, na segunda-feira, prova tão comprida que eu ainda estava trabalhando no Brasil quando iniciou), nada de neve e um sol glorioso, que nos deu a oportunidade de ver algumas das paisagens mais lindas do mundo!

Um sol glorioso. E quente. Muito quente!! Putz, como tava quente nessa terra!!! Embora à noite Chamonix fosse agradavelmente fresca, de dia passava fácil dos 30ºC, com um sol ardido e nenhuma nuvem no céu azul dos Alpes. Lindo. E extremamente desgastante!!


A largada em Courmayeur já teve um clima diferente. Estavam lá os meus amigos Homero e Verinha Saporito. O clima tava gostoso, ainda não tinha esquentado, e eu ainda tive a chance de não largar na última baia. Ao contrário, larguei junto da Verinha. Corremos juntos durante uns... 30 centímetros, porque passou o pórtico a moleca disparou! Não a vi mais! Eu, gato escaldado e com um problema meio bizarro, larguei mais devagar.


O problema bizarro? Bom, em toda prova de montanha a gente deve levar papel higiênico, já que nunca sabe se vontade e banheiro estarão juntos ao mesmo tempo. Não, não tive vontade no início da prova. Na verdade tive antes e fui ao banheiro, lá em Courmayeur, ainda esperando a largada. Depois de uma fila megamonstro, chegou minha vez quando...surpresa! O banheiro era do tipo turco, um buraco no chão. E não tinha papel higiênico nenhum. Nem pra mim. Mas eu tava lá, apertado e fiz o que tinha que fazer. Mas e pra me limpar? Bom, eu fiz o que pude com os recursos que tinha à mão (ou seja, a própria mão), lavei-a (ao menos a pia funcionava bem) e achei que tava ok. Mas logo que comecei a correr vi que não estava. Começou a assar. E no primeiro morro escondido fui me sconder para usar o raio do papel higiênico que tava levando, de modo a completar o serviço. Triste foi surpreender uma corredora que tinha intenções parecidas. Susto pros dois, mas em montanha não tem frescura, segue o jogo.

E o jogo seguiu, muuuuuuito melhor sem a assação no fiofó. Só que esse não era o único problema. O calor começou a pegar forte, e eu que imaginava que nas montanhas o clima poderia estar mais ameno e com vento, logo vi que me enganei. Naquela fila de procissão de corredores em trilha que se forma no começo da prova, eu já me sentia bem cansado. O calor tava me matando. E a subida do Tete de la Tronche não ajudava em nada. 1.400m de desnível positivo em 11km não é mole mesmo!!


Depois da subida, um alívio, descida até o Refúgio Bertone, muita água e coca-cola. No segundo, Refúgio Bonatti, mais ainda. O visual era lindo, mas o calor era desesperador. Em 2012 eu lembro ter feito esse trecho numa boa, correndo até forte demais, o que eu achava que teria me desgastado muito. Em 2015, eu trotava nesse planalto e sofria. Aliás, por causa do sol e do clima lindo, muita gente fazendo trilhas por diversão, shortinho e camiseta, italianada vermelha de sol, olhando aqueles doidos de mochila querendo correr ao invés de curtir. Aliás, não só gente...



No Bonatti eu tava mal. Tonto de calor. Jogava água na cabeça como um desesperado. Aí encontrei um maluco que ao invés de encher a caramanhola nas torneiras, ajoelhou e meteu a boca, desesperado. Brasileiro, lógico. Edgar, que não entendia como os gringos bebiam tão pouca água. A gente precisava se apressar se quisesse chegar no primeiro corte, em Arnuva, dentro do tempo. E fomos, do jeito que dava, até lá. Correndo contra o relógio, chegamos 11 minutos antes do corte!! Mal deu tempo de tomar uma coisa, comer outra e já tinhamos que sair pra enfrentar outra subida violenta, o Gran Col Ferret.




Em 2012 eu tinha tomado uma tempestade de neve na cabeça no Gran Col Ferret, mas ao mesmo tempo tinha achado a subida difícil mas não impossível. Neste ano não teve neve, mas como sofri subindo essa coisa!! Mesmo assim, sentia que tava melhorando um pouco, o calor começava a amainar e apesar da inclinação monstro (800m de desnível positivo em 5km!) eu consegui percorrer aquilo mais rápido do que alguns outros corredores na mesma toada. Nesse padrão de comparação, apesar do cansaço extremo, eu tava bem. E não dava pra enrolar muito porque o corte tava apertado. Mas cheguei lá em cima (sem neve!) com tempo de sobra pra descer até La Fouly. Essa descida eu sabia que era ótima de fazer, em uma trilha bem corrível e rápida.

Só que... o joelho! O joelho que estalou durante toda a subida da Uphill. O joelho que estava sensível nos treinos longos subsequentes (passava de 3hs de treino estalava de novo). O joelho que me lembrava que existia desde o começo da prova, resolveu travar de verdade. Não, não era a dorzinha chata, era a dor que doía mesmo, dentro dele. Não consegui correr na descida mais corrível da prova. Trotei, andei rápido, dava uma aceleradinha, mas o esquerdo doía. Doía! E uma passagem no corte que estava bem garantida acabou sendo o fim de prova pra mim.

Por 15 minutos fiquei no corte.



sábado, 20 de junho de 2015

Comrades 2015

Taí o registro da Comrades 2015!









segunda-feira, 6 de abril de 2015

Trail Adventure Chile 50k (que viraram 54, 55, 56...) 2015

Primeira prova do ano! 50 km num lugar lindo. Largada às 10h00 (ou seja, não tem que madrugar). Preparação boa. Tudo indo muito bem. Início de prova bem tranquilo, passando o pessoal aos poucos, a cada subida, sendo ultrapassado em alguns trechos técnicos de descida, mas retomando a posição no plano e a cada nova subida... analisando a prova depois, descobri que até o km 46 eu estava em 8º na prova e 3º na categoria. E ia terminar assim, não fosse... bom, melhor ver o vídeo!! 



Resultado final? Último lugar, pela primeira vez na minha vida, com 08h25! Mas tudo bem, me diverti assim mesmo e adorei a prova!!!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Eco Trail de Paris 2014

E então chega a data da primeira meta do ano, a Eco Trail de Paris. Tentei fazer tudo direitinho, cheguei na Europa uma semana antes pra me adaptar ao fuso e matar o jet lag. Visitei a Bélgica mas não me matei de andar por lá e nem me afoguei nas maravilhosas cervejas belgas. Lógico que tomei umas aqui, outras ali, mas leve, preservei bem o fígado. E fiz carbo load com batata frita, outra especialidade belga. Fui pra Paris na quinta e passei a sexta em passeios bem leves para a prova no sábado. 

Largada ao meio-dia, perfeito para dar tempo de me deslocar até Saint-Quentin en-Yvelines sem precisar madrugar. O clima andava bom também, friozinho leve com sol, sem chuva para enlamear as trilhas. Retirada de kit em uma feira de eventos que tinha como mote a vida ao ar livre, com vários expositores interessantes, produtos legais e preços em... euro. Isso é que dava dó. Mesmo assim comprei uma coisinha ou outra e um gel de carboidrato interessante, cafeína 100%. 

O transporte até a largada era muito simples. Trem RER C a ser pego na estação da Torre Eiffel, descendo em Saint-Quentin en-Yvelines, onde os corredores pegaram umas vans da organização e foram desovados na largada, um tipo de um parque com uma estrutura legal, com banheiros, cafezinho, comidinhas e um gramadão onde eu tirei uma soneca. 

Largamos nesse próprio gramado, ruim de correr porque muito irregular, mas logo depois caímos numa estrada de terra. Tinha bastante gente (quase 1.400 corredores concluíram a prova, um número um pouco maior largou) para uma ultra, mas não teve muito tumulto, o ritmo era fluido e tranquilo.


O problema é que repeti um erro. Como aconteceu no Half Misión, as ataduras que coloquei para estabilizar o tornozelo acabaram pressionando os pés, me causando dores chatíssimas. Eu treino com elas mas, novamente, quando vou usá-las em provas, faço alguma coisa errada, tensiono demais e me ferro. A dor começou lá pelo 5º e ficou me enchendo o saco. Um pouco antes do 1º posto em Buc, km 24 (tô me baseando na marcação oficial, mas no GPS era um pouco menos), eu achei um banco de praça, me sentei e tirei as danadas. Perdi um tempão nisso, foi trabalhoso, especialmente com as meias de compressão pra ajudar, mas o alívio foi imediato no pé direito. O problema é que no esquerdo a dor continuou (aliás, como no Half Misión!). Achei que fosse dar uma assentada por causa da posição, mas ela me perseguiu...

Até esse primeiro posto a prova foi extremamente fácil. Imaginava que ia ser mais complicado do 1º para o 2º posto, em Meudon (km 47), ainda mais porque esse seria um posto só de água, sem comida. Não foi tão ruim, exceto as dores no pé. Já bem perto de Meudon, eu não aguentava mais e enfiei um Flanax pra dentro, mas demorou bastante para fazer efeito. A dor não atrapalhava muito o ritmo, continuei correndo praticamente o tempo inteiro, mas incomodava demais.

Ali foi o meu pior momento da prova. Além da dor no pé, me senti meio mal, com um pouco de enjôo. O bom é que o ritmo era bem rápido e tava com sobra para fazer a prova em 10h40, um tempo que me daria a qualificação para a Comrades. É uma marca tranquila para ser feita no asfalto, mas em trilha ninguém sabe o que pode acontecer. Felizmente, as trilhas parisienses não atrapalharam em nada o objetivo.

Depois do km 50, tudo começou a melhorar. As dores começaram a diminuir e comecei e me sentir bem melhor. A prova continuava sem grandes tormentos, com trilhas pouco técnicas, sem muito problema como relevo. Algumas subidas eram inclinadas, mas elas eram curtas e não causavam muito estresse. Subia andando forte e quando chegava no plano já dava pra correr sem problema. Os quadríceps, no entanto, começaram a se contrair em pré-cãimbras bem chatinhas. No km 58, o terceiro posto da prova (Chaville), já havia comida de novo. Deixei o gel de lado e mergulhei no salame! Sal pra dentro e bola pra frente!

A noite caiu e cheguei ao último posto, no km 70, já sem as pré-cãimbras nos quadríceps e o pé zerado. Ali o problema era o natural cansaço de tantos quilômetros, mas eu tava tão bem na prova, tão dentro do objetivo, que tudo era lindo. Dali sabia que tínhamos apenas uma descida forte e longa (o único trecho inclinado mais longo) e a chegada à cidade, onde só teria plano e asfalto até a chegada. A descida também não foi problemática e não oferecia muitas dificuldades técnicas. Minha headlamp só iluminava trilhas leves e bem demarcadas, e chegar em Paris foi uma maravilha.

Era só seguir na direção da Torre Eiffel iluminada! Quer dizer, na verdade o pessoal colocou uns desviozinhos aqui e ali e errei o caminho umas duas vezes nesse final de prova urbano. Mas fui rapidamente socorrido (Gauche! Gauche!!) e cheguei sobrando, com 09h47min38s. Quase uma hora abaixo do planejado! Comrades, você vai ter que me aguentar!


519º lugar em 1.320 concluintes. E dava pra ser melhor. Fui bem conservador no ritmo, não ataquei subidas e ainda tive a perda de tempo na hora das ataduras. Excelente. Tanto que fui ganhando posições ao longo da prova. Na primeira passagem era o 956º colocado, por exemplo. Uma prova tecnicamente suave, sem problemas de relevo do solo (a pior parte, por incrível que pareça, era a largada no gramado cheio de buracos) e com subidas e descidas fáceis, do tipo que encontramos em São Paulo. Que venha a Comrades!



domingo, 2 de março de 2014

Corrida no Ar - Ultranishi

Depois de quase um ano brincando de fazer sonoras pela Bradesco Esportes FM eu fui "contratado" pelo Serginho Rocha para fazer parte do Corrida no Ar, no final do ano passado, um programa ao vivo sobre corrida lançado em abril de 2013, transmitido pelo Youtube e que é uma verdadeira mesa redonda-corrida-debate-divertida-pra-caramba, onde temos um âncora que sabe tudo sobre corrida descalça (da cabeça aos pés - Sérgio Rocha), um cara super mega técnico e crítico das "verdades" não tão-verídicas das corridas (Danilo Balu), um carioca amador marrento e velocíssimo, consumidor-nerd-voraz das questões corridísticas (Nelton Araújo), uma corredora super-mega antenada sobre as novidades do vestuário feminino, mas que corre muito mais rápido do que a maior parte dos homens por aí (Paula Narvaez), lista na qual me inclui.

Ah, e tem eu. Eu que não sei pemba nenhuma de aspectos técnicos de corrida, que não sou veloz, que faço parte da turma fundão nas provas e que... não tô nem aí pra isso porque apesar de tudo (ou apesar de nada), adoro conversar sobre corrida, e correr corridas.

O site Corrida no Ar (www.corridanoar.com.br) foi lançado em fevereiro e além dos programas ao vivo, que rolam todas as terças-feiras, 21h00 (para quem não consegue assistir ao vivo, eles ficam gravados e disponíveis no Youtube para serem assistidos a qualquer momento), agora foram reunidos no mesmo portal as outras matérias do Corrida no Ar e as colunas. Por enquanto, o Sérgio Rocha resgatou o seu Corredólatra (antes um blog da Revista Contra-Relógio), o Balu passou a disponibilizar o blog Recorrido também pelo site (além disso, e foi criada uma coluna tira-dúvidas sobre fisioterapia a cargo da Raquel Castanharo, chamada "Pergunte para a Raquel", além de outras colunas que esperamos estrear em breve. 

E lá tem a minha coluna também, chamada Ultranishi, onde o tema... sei lá, o tema é o que vem na minha cabeça. Como tenho as minhas ultramaratonas, conto algumas das minhas histórias ali, mas também falo de outras viagens da minha cabeça relacionadas à corrida. E este blog continua aqui como sempre, com a sua finalidade de ser mais uma "muleta" da minha memória, registrando treinos e provas. 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Half Misión Serra Fina 2013

Quem já ouviu falar da prova La Misión, na Argentina, sabe que é uma das provas mais difíceis que existem no mundo. São 160 km subindo e descendo as "pequenas" montanhas dos Andes patagônicos, um desafio para muito poucos. Para ter ideia da dificuldade, gosto de contar a história do Leal, um dos melhores corredores amadores que conheço, maratona em 3h04, e um dos brasileiros pioneiros do Cruce de los Andes, onde invariavelmente chega no top 30. Um cara casca-grossa, rápido, conhecedor de montanha e que por várias vezes tentou e não conseguiu completar o La Misión. A mais emblemática foi quando sua bota congelou e ele teve que urinar nela para conseguir calçá-la de volta...

Mas tem um outro brasileiro que eu conheço, casca ainda mais grossa, diversos Ironmans no currículo e que já completou o La Misión 3 vezes. Eu o conheci quando ele completou a Mont Blanc (a original,  mais longa, e não o CCC) e por conta de sua fama ele conseguiu trazer o La Misión para o Brasil. O Sidnei Togumi é um cara de outro mundo, neste ano fez o PTL da Mont Blanc, prova de 300 km, com desnível acumulado de 24.000m para ser completada em 136 horas!

Se é esse o cara que vai trazer uma das corridas mais difíceis do mundo para o Brasil, coisa tranquila não vem, certo? Mesmo que sejam versões mais curtas, de 80 e 40km (Half e Short), era lógico que iria vir pedreira. Eu só não imaginava quanto...

A Serra Fina talvez seja um dos poucos lugares do Brasil onde dá pra fazer o que ele planejava: ascenções e declives longos, íngremes e intermináveis. A cidade de Passa Quatro, no sul de MG fica a 900m de altitude. A Pedra da Mina, ali perto, tem quase 2.800m, uma ascenção de 1.900 metros. Nada mal, hein? A definição do site extremos.com.br é bem animadora: "Uma trilha complicada, em um dos lugares mais inacessíveis da Mantiqueira. A Pedra da Mina integra o maciço da Serra Fina, que guarda em seus caminhos intrincados uma das travessias mais difíceis do Brasil"

Como no comercial das facas Ginsu, "e não é só isso!" Não era "só" subir e descer uma vez. Haveria uma segunda subida na parte final da prova. Não, não tinha o desnível de 1.900, era só 1.400m... aiaiai!!


A prova teria o limite de 24 horas para os 80km. Menos de 4km/h de média... dá, não dá? Não é possível que não dê! Bom, dias antes da prova, o organizador informa que devido à tecnicidade do terreno, por conta das chuvas, esse limite foi ampliado para 26 horas... quase 3km/h. Não é possível que não dê!

Infelizmente, como bem registrado neste blog, a preparação foi complicada. Torci o pé esquerdo duas vezes na Travessia de Charlevoix, torci o pé direito treinando na Cantareira, tive um estiramento muscular na bunda e o meu tendão de aquiles não me dava trégua. Mesmo assim, o corpo estava bem. Talvez não tão bem como em outras ocasiões, mas bem, com boa capacidade aeróbica, me sentindo forte, embora com dores.

Chegamos em Passa Quatro com uma baita expectativa. O Orlandini tava tinindo, fez praticamente todos os treinos pesados. Além disso, o pessoal dos 40 km tava com o astral lá em cima. Fredão, Cassiano, Edith e Dalvinha, só corredores experientes, fortes, com boa história de corrida.



O clima estava bom, não estava quente como no dia anterior, mas com muitas nuvens. Risco de chuva que felizmente não se confirmou.

Na largada, logo que comecei a correr, senti um problema. Os pés estavam apertados e doíam, talvez fossem as faixas que passei para dar um suporte aos tornozelos. Nesse início corrido da prova eu não desenvolvia, sentia muitas dores, tava chato demais. A subida até o Refúgio Serra Fina, 12 km adiante, era um dos poucos trechos não-tecnicos da prova, uma estrada de terra, com algumas partes um pouco ruins, pedregosas, mas bem longe de ser um desafio. Só que além do pé doer, cada pisadinha torta era um choque nos tornozelos.

No Refúgio perdi algum tempo tirando as faixas. Segui só com as tornozeleiras. O pé direito melhorou, mas o esquerdo continuou doendo, embora menos. Dali se iniciava a íngreme subida ao Capim Amarelo. Cruzamos um riozinho, onde encontrei o Zumzum, velho companheiro dos 80km de Campinas e começamos a subir uma trilha bem íngreme. Bastões a postos e força nas pernas. Subimos, subimos, subimos até começar a chegar no topo da montanha. Mas era o topo da primeira montanha, bem longe do Capim Amarelo. Dali a gente passou a seguir a crista da montanha, descampado, bem alto e com um visual lindo. Dali vinham algumas das melhores imagens da Serra Fina, assim chamada por ter um caminho bastante estreito nessa crista.

Os minions!!!


À medida em que chegávamos ao Capim Amarelo, aparecia o famoso capim elefante, um capinzal de mais de 2 metros de altura que cobre tudo e transforma aquilo num inferno verde. Isso era revezado por trechos de subida muito íngreme e rochosa.




Chegamos ao Capim Amarelo, a 2.400m, depois de 5 horas de prova. Realmente a visão era deslumbrante, mas o esforço foi bem grande. O pé esquerdo e os tornozelos continuavam ruins, mas tava indo. Ali em cima havia uma divisão: o pessoal dos 40km, de vermelho, desceriam à esquerda e retornariam pelo Tijuco Preto para o Refúgio e depois para a cidade. Nós, dos 80km, seguiríamos até a Pedra da Mina.



Pensei em desistir. Mas uma argentina maluca, empolgada, a Paulinha convenceu toda a patota de amarelo que tava em dúvida lá em cima. Seguimos a partir daí num grupo de 6: eu, Zumzum, Homero, Ricardo, Coutinho (que tinha passado mal e seguia do jeito que dava) e a própria Paulinha.

Eu imaginava que do Capim Amarelo até a Pedra da Mina, um desnível de 400m, teríamos algumas subidas, mas que seria menos difícil do que tinha sido até ali. Engano brutal. Atravessamos 3 valezinhos e montanhas, subindo e descendo e, embora não houvesse aquela metragem toda acumulada, as subidas e descidas eram muito íngremes, com terreno muito difícil, às vezes com capim-elefante, às vezes com pedras, às vezes tudo isso misturado.

Eu e Coutinho, um mais morto que o outro...



Escurecia e começava a fazer frio. Fizemos uma parada técnica para vestir mais roupas e preparar os headlamps. E à medida que escurecia e chegávamos perto da Pedra da Mina, pior ficava. O terreno ia ficando cada vez mais agressivo, com paredões de pedra para contornar ou mesmo subir, na marra. Vários trechos tinham cordas, dada a dificuldade.

Perreeeeengueee...
Chegamos à Pedra da Mina só às 10h15 da noite. Em um grupo de seis, íamos mais lentos do que o normal, porque sempre havia quem ficasse um pouco para trás e nos reagrupávamos na primeira dificuldade, ultrapassada em conjunto. Uma opção consciente, mas com esse efeito colateral.

No cume, um vento geladíssimo, frio, sensação térmica inferior a 0ºC. Apelidada carinhosamente de "La puta pedra" por nossa portenha, paramos ali para assinar o livro e descansar um pouco. O argentino que controlava o posto nos informou, para nossa (in)felicidade, que esse Half Misión era muito mais difícil que qualquer outra etapa do La Misión, inclusive o original...


O Ricardo, que vinha bem e liderando o grupo o tempo inteiro, se sentiu meio mal, com dor de cabeça e sono extremo. Mas um pouco de carboidrato e analgésico seguraram a situação. O Coutinho estava melhor, após um tônico que o Homero lhe deu. Este, por sua vez, tava com a lente de contato comprometendo tudo e trocou por óculos. Zumzum, naquele momento, já tinha disparado na frente. Eu e o Coutinho saímos rápido do cume por causa do frio e descemos um pouco até o vento amainar, onde aguardamos o resto do pessoal.

Se acháramos a subida ruim, a descida foi pior. Porque descer paredões de pedra nua é muito pior e mais perigoso do que subir, ainda mais naquela escuridão. Mesmo com a sinalização perfeita, mesmo com headlamps potentes, a noite e a escuridão tiveram um efeito bastante desmoralizante. Insegurança, desamparo, sobrevivência!

A partir de um determinado momento na descida, eu e o Homero começamos a nos desgarrar do Ricardo, Paulinha e Coutinho. Avançávamos, esperávamos um pouco e seguíamos, abrindo vantagem rapidamente, mesmo naquele ritmo lentíssimo de descida. Minhas coxas doíam demais e os tornozelos há muito não me davam nenhuma firmeza. O Homero caiu e machucou o joelho, mas conseguiu seguir. A sede começou a pegar, mas por sorte minha água nunca acabou, sempre tive uma reservinha.


O pior era encontrar os controles no meio daquele vazio e eles informarem que só faltavam 40 minutos até o riacho, até a água, até o Paiolinho. Porque NUNCA era 40 minutos, sempre passava uma hora, uma hora e meia... me sentia um pato nessas horas, 40 minutos de que jeito? Voando? De asa-delta?

A sensação de perigo constante, os escorregões, as coxas ardendo de tanto segurar o corpo nas descidas, o culopatín (descer de bunda), tudo isso somado à madrugada tornaram essa descida da Pedra da Mina até o Paiolinho a pior parte da prova para mim. Para percorrer esses 08km, eu e o Homero levamos quase 7 horas!! O Garmin pifou, e o tal do Paiolinho nunca chegava!!

Chegamos lá com 16h50 de prova (3h50 da manhã), 35km de prova, 2km/h de média? Apesar do cansaço, estava bem organicamente e bem de cabeça. Mas era óbvio que quem tinha feito metade da prova em 16h50 não faria a outra metade em 09h10! Mesmo que do Paiolinho até o Ibama fosse uma estrada de terra em descida e em boas condições, eu não conseguiria tirar essa desvantagem. Desisti. O Homero também ia desistir, mas encontrou uma outra argentina maluca que queria seguir de qualquer jeito e foi com ela.

Nesse posto já estavam o Marcelo (que eu encontrara na loja da Salomon em São Paulo, retirando a camiseta) e o Caio, descansando depois de desistirem também. Os três desistentes, sem a menor dor na consciência... Paulinha e Ricardo chegaram um pouco mais tarde, mas o Coutinho ainda tentou mais um pouco. Infelizmente, mas previsivelmente, nem ele, nem o Homero foram muito longe e também desistiram um pouco mais pra frente.

O resgate demorou porque eles esperavam a chegada ao Paiolinho dos outros corredores atrás da gente. As últimas chegaram às 08h00 da manhã e queriam continuar, uma delas era uma Misionera do La Misión original de 160km. Ela argumentava: "Se eu fiz 160km vou parar aqui com 40?" Pois é...

Mas a história não acaba aqui. A minha sim, mas ainda deu tempo de voltar pra cidade, tomar um banho, ir para a chegada e acompanhar a chegada emocionante e sensacional do Orlandini, com 24h15m de prova. Ele veio com a Rita, ambos se ajudando no final da prova, uma marca do La Misión. Os corredores se agrupam e se unem durante a prova para enfrentar as dificuldades.


Nos 40km, a Dalva voou, fez uma prova brilhante e ganhou na categoria dela, em menos de 7 horas. A Edith e o Cassiano chegaram na casa das 07 horas e o Fred fechou com 08h40. Todos inteiros, dentro do possível.

Valeu a pena? Bom, foi uma experiência única. Mais difícil que o Misión original, dizem (prova que eu nunca tive coragem de fazer). Mais difícil que o CCC. Mais difícil técnica* do que qualquer outra prova brasileira direta, sem etapas. Quem disso isso não sou eu, mas muitos outros veteranos de provas difíceis, gente cascuda mesmo! E o fato de não ter completado não importa tanto, já que não fui o único. Segundo o site, só 77 terminaram. Esse número está errado porque o Orlandini figura como non-finisher, o que não é verdade (é só ver a foto), e deve ser corrigido em breve. De qualquer forma, 78 entre 132, um índice altíssimo de desistências! Caras como o Mauro Chasilew e Walter Rinaldi estão do meu lado, nos DNF. A coisa foi feia! E o visual, lindo!! E, de qualquer maneira, eu conquistei mais um cume, o da Pedra da Mina.


Obs: algumas dessas imagens foram captadas no Facebook, de amigos, de amigos de amigos, enfim, várias fontes. Difícil dar o crédito a todos porque já esqueci de onde tirei. Mas acho que todos concordam que as imagens, por mais lindas que sejam, não chegam nem aos pés do visual que se tem do próprio local.



* atualização: "mais difícil" foi um termo usado no calor do momento pós-prova. "Mais técnica" talvez seja melhor, porque a BR-135 (217km)  e a Ultra dos Anjos (235km) são extremamente difíceis pela distância, embora sejam percorridas em estradas de terra, portanto em condições menos técnicas. E tem a Jungle Marathon, 200km em 7 etapas, que oferece monstruosa dificuldade pelas condições climáticas da selva amazônica, pelo terreno de floresta, com lama, areia, travessia de rio, raízes etc, além do desafio de fauna e flora (cobra, onça, escorpião, formiga...)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A segunda vez que desisto - Ultra Trail Harricana de Charlevoix

Foi na empolgação. Eu tinha visto essa prova em algum site, tinha achado interessante por ser perto da casa de minha irmã, mas as inscrições estavam encerradas. Pena, achei que não era dessa vez que ia fazer a Ultra Trail Harricana de Charlevoix, região ao nordeste de Québec, cheia de verde, parques nacionais etc.

Só que na viagem de férias, sem querer topamos com um Festival que nem minha irmã sabia que tava rolando, o Festival du Plein Air, que justamente divulgava atividades ao ar livre, ao que os canadenses fazem muito, por aproveitarem a ótima infraestrutura de seus parques nacionais. Além disso, era verão, época de acampamentos e trilhas. E lá tinha um estande divulgando a prova... fiu conversar com o pessoal e eis que o cara que tava lá, meio no inglês, meio no espanhol, me disse que tinham sido liberadas mais 20 vagas para a prova. Aiaiaiai...

Foi na empolgação. Me inscrevi, pra voltar para Québec em setembro... a prova, de 65km, até encaixava bem na rotina de treinos para o Half Misión, aparentemente.

Enfim, lá eu descobri no briefing que: 1) se você não fala francês, não vai entender nada; 2) tinha que levar um guizo para afastar ursos e caçadores; 3) a prova era de estréia, eles não sabiam muito bem se as barreiras de tempo estavam adequadas; 4) eu era praticamente o único estrangeiro de fato lá (depois descobri uns 2 ou 3 franceses e um colombiano que morava em Montreal).

A prova era mais do que uma corrida, era um acampamentão em uma estação de esqui que estava sem neve. Muita gente passou o final de semana inteiro por lá, acampando, confraternizando. E embora fosse a primeira edição dos 65 km, a prova já existia há algum tempo, nas distâncias de 28, 10 e 5 kms. Nessa distância de 28km havia uma brasileira, Clarisse, que era amiga do organizador e que me mandou um e-mail muito amigável se apresentando e dizendo que ele estava animado pelo fato de ter gente de fora correndo. Cool!

Não era mesmo muito provável um estrangeiro numa prova que tinha 150 atletas no interior do Canadá. E aparentemente, 149 desses atletas eram fortes, bons corredores. A exceção era eu... 

O ônibus sairia da largada às 5h00 e, portanto, teria que acordar às 4h00 para pegar um táxi da cidade (La Malbaie) até lá. Agendei o táxi para 4h30 e... nada! O filho da puta não apareceu!!! Acordei o cunhado às pressas e voamos até lá, fizemos o trajeto de meia hora em uns 10 minutos!! Mas deu tempo, fui o último a chegar e a entrar no ônibus. Uffs!! Bom, passamos 1h00 no ônibus até a largada, onde deu para dar uma dormida. 



A largada era na sede do Parque Nacional Haute-Gorge. Seguiria uns 08km em trilhas internas fáceis e depois sairíamos para a Travessia de Charlevoix, num território fora de parques. Nesses 08 km, em trilha fácil, eu já percebi que o pessoal não tava de brincadeira. Tava um pouco abaixo de 6min/km e estava entre os últimos, a galera sentando a bota. Se eu soubesse o que vinha pela frente...

Quando começamos a travessia, o bicho começou a pegar. Foi, basicamente, um single track que começou no km 08 e só terminou lá pelo km 31! Embora fosse um dos pontos de altimetria pesada em subida, nem senti tanto isso, o problema era mesmo o terreno, muito irregular. Trilha cheia de pedras, raízes, troncos atravessados para serem escalados e muito úmida, com vários lamaçais. Algumas pinguelas de madeira sobre riozinhos me renderam ótimas escorregadas (madeira lisa e molhada é beeem escorregadia), alguns lamaçais me fizeram ficar com as duas pernas fincadas até as coxas no lodaçal. E eu sou habitualmente lento nessas condições. Pior, sou lento para caminhar também e caminhar era obrigatório em vários trechos assim.

Fiquei bem pra trás. As pessoas passavam por mim, caminhando, lidando melhor com as trilhas, e eu ficando... o esforço também começou a me dar cãimbras e fiquei muito tempo sozinho na prova. Quando saímos das trilhas e ingressamos em um trecho fácil, em estrada de terro aberta e e descida, percebi que não tava conseguindo correr. Pior, comecei a fazer conta e percebi que estava muito lento para as 10 horas que eram limite da prova. Forcei, forcei, mas não ia! 

Cheguei no posto do km 42 com 6h29. O corte era 6h30. Mas tinha 23km para serem feitos em 3h30, e adiante tinha mais trechos de single track até o km 56 pelo menos. Eu teria que tirar tempo onde dava pra correr para ficar na prova e isso tava difícil. Meus pés estavam detonados, o Mizuno Harrier, embora com bom grip (exceto na madeira lisa e molhada), era muito leve e me fazia sentir todas as irregularidades do terreno na sola dos pés. Desisti. Comi o nhoque, a coca-cola, as frutas e me retirei, sem arrependimento nenhum. 

Logo depois chegaram outros corredores (então eu não era o último?). Um deles desistiu também, era o colombiano Oliver Córdoba, que perdera muito tempo por se perder. Coincidentemente, amigo da brasileira Clarisse, que eu acabei não encontrando. Os outros estavam em trio, correndo juntos e terminaram a prova em 10h51. Eu iria terminar um pouco antes deles, bem fora das 10h00. O problema é que devem ter alterado alguma coisa e classificaram o pessoal até 11h00. Se eu soubesse, acho que arriscaria. Desisti sem estar totalmente exaurido, dava pra continuar, o problema era a barreira de tempo mesmo.


Não deu. Paciência. Mas se encarar como treino foi bom. É o que dá pra fazer. Agora é lamber as feridas e continuar.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

12 horas de Valinhos

E lá vamos nós, para as 12 horas de Valinhos. Uma daquelas coisas que a gente topa e depois fica pensando: por que? Por que, meu Deus??? Pista de 1.325m num parque um pouco maior que o parque da Aclimação.

Não deveria ser tão cruel assim. Em revezamento eram só 06 horas, mas competição é sempre aquela desgraça, você vai pra treinar, mas sempre dá um boost e força mais do que deveria... e neste caso, justificadamente.

Fui pra prova meio relaxado porque, em tese, haveria uma categoria única para os revezamentos. Então eu e o Orlandini teríamos que competir com quartetos, algo que tiraria por completo qualquer chance de premiação. De fato, um dos quartetos era o do Paulinho Lacerda, e ele nem era o mais forte do time dele (tinha um cara que corria 10km pra 30 minutos... ganhou provas do Circuito Caixa, 4º na Golden Four, enfim...). Coach Lopez também iria encarar a prova, mas no solo. Ou seja, papinha e sofrimento à vista pro carequinha.


Mas o parceiro não tava nem aí. Largou e já sentou a bota, puxou 10km em 47 minutos... entregou pra mim e saí num ritmo bem mais moderado. Pensava em rodar umas 2 horas, mas com 1h20 o Orlandini já tava lá na zona de troca. Achei bom, porque sai com o Levitas e logo percebi que um minimalista não combinaria com um piso tão cheio de pedras como o de Valinhos. Troquei e fui trocar o tênis. Foram 09 voltas de saída e eu tava um pouquinho esquisito, mas tava indo. Não tava lerdo, mas o Paulinho Lacerda, em 6 voltas, me passou 3 vezes... acho que eles estavam saindo com tudo pra abrir vantagem logo nos quartetos!!!

O da frente era quarteto. Eu, em dupla, só tomando volta....
As trocas foram se alternando de uma forma relativamente rápida. Meio sem combinar, a gente trocava sempre que a performance começava a cair um pouco, num tempo que variava entre 1 e 2 horas. Até porque pra quem tava fora era meio chato ficar esperando... 

Acho que foi por volta de 6 horas de prova que eu fui lá xeretar na organização e percebi que tinha troféus para duplas. Êba! E naquele momento a gente tava bem, em 06º lugar, mas bem próximo das duplas da frente. Mesmo assim, fiquei meio tranquilo, não queria forçar muito, não tava num bom dia (embora não estivesse horrível). Depois de 3 horas correndo, o cansaço também começava a dar suas caras. Ali, eu chutei que iríamos chegar a 125km, mas já tinha umas leves cãimbras na panturrilha direita. O Orlandini tava com bolhas, mas o bom do revezamento é que dava tempo de consertar, o que ele fez com a Silver Tape do Paulinho Lacerda

Quando faltavam 4 horas de prova e a noite começava a cair, a estratégia era a seguinte: o Orlandini puxaria 1 hora mais rápido, eu tentaria puxar o máximo que dava (ia correr 2 horas seguidas) e ele fecharia com outra hora também rápido, aproveitando o descanso maior. Já estávamos na zona do pódio, mas a disputa tava pegada.


O que tava louco eram os quartetos. O Branca tava trocando a cada volta e saindo como se fosse prova de 400m!!! O quarteto do Paulinho voava, mais de 08 voltas na frente, mas a briga de 2º e 3º tava cruel e o pessoal voava na pista. Um baita contraste com os ultras solo, que caminhavam, e as duplas, que corriam num ritmo bem mais normal, entre 5 e 6min/km. 

O Orlandini saiu e eu entrei. Eram 07 da noite, tava frio pra danar, mas é o meu melhor horário pra correr, acostumado com os treinos noturnos do Ibira. E realmente fui bem durante uma hora, embora de vez quando sentisse uma fisgada de cãimbra que me forçava a diminuir momentaneamente. Só que com 1h20, mais uma vez o Orlandini estava lá fora, ansioso, na zona de troca. Trocamos, porque ele achava que dava pra buscar o 3º. E dava mesmo! Naquela altura, a 5ª dupla dificilmente pegava a gente, apesar de ser o Émerson Bisan, um cara extremamente forte.

No entanto, quando fui pra barraca, passando frio, tive um ataque monstro de cãimbra. Travou tudo! Começou na panturrilha, fui alongar e travou a coxa. Aí travou a outra e fodeu tudo! Músculo grande, era desesperador, caí no chão e cãimbrou as costas e o abdomen. Eu parecia a boca do Silvester Stallone virada do avesso!! O pessoal da tenda do lado (valeu Teddy!!!) me ajudou muito, mas aí já não dava mais pra correr. Se ficasse de pé, sentia cãimbra. Só tinha uma posição razoável, sentado num banquinho e mesmo assim toda hora dava uma fisgadinha...

O Orlandini teria que ficar na pista pelos meus 40 minutos restantes. Consegui levantar e avisar, mas acho que ele já tinha visto. Garante o 4º! Garante o 4º!! E ele garantiu, até porque foi caindo o ritmo de cansaço mesmo, já que tinha saído para uma hora mais forte. 


No final, pódio garantido: 4º lugar!! 123km, praticamente a quilometragem que estimei. E aos poucos, conseguia voltar a me locomover. O quarteto do Paulinho levou fácil. E o Coach Lopez fez respeitáveis 92km! 




sexta-feira, 29 de março de 2013

Ultramaratona 50 milhas Campinas - 2013

Lá fui eu pra Ultra 50 milhas de Campinas. A estratégia era simples: ir devagar no começo e me preservar para aguentar firme a segunda metade da prova, sabendo que as piores subidas estariam entre o 20º e o 60º km e prevendo a possibilidade de bastante calor, algo comum na região.

Prova bastante "corrível", na maior parte do tempo em estrada de terra (99,8% estrada de terra, 0,1% asfalto, 0,1% single track) e dá pra fazer em umas 10, 11 horas. O problema é que eu não acordei bem e logo que comecei a correr senti um calor excessivo, batimento cardíaco muito alto pro ritmo leve que vinha mantendo. A primeira urinada indicou o problema: mijei coca-cola, urina escura, os rins estavam meio ruins, sei lá porque. Não estava me sentindo 100%, mas não tinha nenhum problema maior, só que a prudência me fez diminuir ainda mais o ritmo (de leve para mais leve ainda). Pior, o pé direito doía muito no dedão e por causa desse problema no rim, eu não tomei nenhum remédio, nenhum antinflamatório.

A "sorte" (na verdade azar dele) era que o Gustavo Abade também não estava bem por causa do resfriado dele e fomos os dois, junto com um outro atleta do Branca, André Zumzum nessa toada levíssima. Algum alívio veio no posto do km 32, onde deu pra tomar uma ducha e beber uma coca-cola, além de encher a cara de isotônico e água de coco, mas mesmo assim ainda me sentia com calor. A temperatura não estava alta (no máximo, 29 graus), mas tava muito abafado. Mesmo assim a estratégia de se poupar tava dando algum resultado e a urina tava saindo mais clara, embora pouca.


O Gustavo abandonou rapidinho os bastões...
No posto de retorno, km 41, uma decepção: não tinha água. Voltamos praguejando, mas 2 km mais adiante, possivelmente avisado pelo pessoal, o organizador da prova, o Fernando Nogueira, apareceu de carro com o líquido salvador. A partir daí o Gustavo, já se sentindo melhor, e o Zumzum, que tava inteiraço, seguiram mais forte. Eu continuei na minha toada, até porque embora a urina indicasse melhora, continuava sentindo muito calor. Entre o 43 e o próximo posto, no 59ºkm, gastei minha água inteira molhando o corpo.

O posto móvel salvador!!!
Nesse posto, o último, até cogitei parar. Pior, as nuvens no céu indicavam chuva. Mas nesse posto encontrei o Gustavo e o Zumzum, descansando há quase 12 minutos, e achei que a possibilidade de a temperatura baixar fosse me ajudar. De fato, não deu 2 minutos e começou a pingar. Reabasteci e saí. 500m adiante cai um temporal daqueles, e o calor virou frio. Dava até medo, de tanto raio e trovão Trotava pra tentar me manter aquecido. Mas passei a me sentir bem, o organismo voltou a reagir!! A sorte é que apesar da água, na maior parte do tempo a estrada de terra aguentou firme e não virou lama. No máximo, uma água empoçada até a canela, uns rios de lama descendo, mas nada que fosse absurdo. Quando as piores subidas da volta passaram, deu pra desenvolver uma velocidade até boa. No 66ºkm, quando vinha numa descida a 5min/km, mesmo com o pé doendo pra cacete, encontro o Casal Coyote, Cynthia e Oswaldo. Aleluia!!

Eles, em dupla, já tinham terminado e voltaram pra dar um help pros amigos que ainda estavam na prova. Gatorade salvador, água deliciosa e eu até cheguei a pensar que daria pra chegar ainda de dia. Eles ainda me deram mais um help no 72ºkm. Ali eram 11 horas de prova e faltavam 08km. No ritmo que eu estava daria pra fazer abaixo de 12? Cheguei a pensar nisso, mas aí começou a escurecer. Quer me sacanear? Me coloque pra correr de noite, na chuva e com um piso irregular. Eu sou cego à noite!! Diminui muito o ritmo, até porque headlamp e boné (obrigatório para não molhar os óculos) não combinam. E no que diminuí, os músculos esfriaram e começaram a doer muito.

Bom, era só terminar então fui pianinho. A 3km da chegada encontro o portão de entrada do canavial e ali o piso tava ruim. A terra virou barro, escorregava na subida... o pequeno trecho de single track não foi melhor, tinha umas descidinhas onde não conseguia ficar em pé. Mas tava muito perto. Saio no asfalto, contorno a Decathlon (e lógico que tinha subida nessa hora... ai minhas pernas!!) e chego, mancando, todo torto, 13h12m55s de tempo oficial e mais de 2 horas pra fazer os 08 km finais!!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CCC Mont Blanc: O primeiro abandono a gente nunca esquece


As previsões meteorológicas nos dias que antecediam a prova não eram nada boas. Uma semana antes já se falava em frio e chuva. Mas chegando na Europa 5 dias antes, num calor de mais de 30 graus em Turim (que fica pertinho de Chamonix, no maximo 200 km), tinha esperança que eles fossem tão ruins nessa arte de adivinhar o tempo como são os brasileiros.

Mas não são. E previsão do tempo é quase uma obsessão pra quem vive nos Alpes, percebi. Em Chamonix a previsão do período fica afixada na vitrine das farmácias, nas recepções dos hotéis e no meu celular, bombardeado por SMS da organização da prova, cada vez mais sombrios "TDS, CCC, UTMB Attention! Weather forecast: rain, snow at 2000m, wind, cold. Temperatures dropping below -5 C. Have winter clothing"

Cheguei na quarta e visitando o salão de expositores já tomei minha primeira lição. Sim, se eles falaram que ia chover à tarde, acredite! Cheguei no hotel todo ensopado. Pelo menos serviu de aquecimento pro que vinha em sequência. No dia seguinte fui pegar o kit e mais chuva. A retirada foi bem demorada, com filas grandes por um bom motivo: o check-list dos equipamentos obrigatórios. No final das contas acabaram não sendo tão rigorosos. Ainda bem porque ficar tomando chuva na fila tava complicado. Fora essa complicação meteorológica tudo me pareceu extremamente organizado. Impressionante, por exemplo, o sistema Live Trail, que twitava e facebookeava automaticamente a cada posto de passagem vencido durante a prova. Depois pude perceber que o negócio funcionou direitinho.



Eu fui designado pro busão das 7:15, que nos levaria a Courmayeur, na Itália, onde largaríamos. Aliás, impressionante também o esquema de ônibus, ligando não só a largada e a chegada, como tambén outros postos chave da corrida, como La Fouly, Champex, Trient, Vallorcines, e isso sem contar os outros postos que faziam parte da UTMB classica, como Les Contamines, St. Gervais... e os ônibus ficaram circulando o tempo inteiro, do começo do TDS, na quinta, até o final da UTMB, no domingo! Cobrindo três países!! O negócio é gigantesco! Ah, o mais impressionante é que não estava restrito aos atletas. Ao contrário, os atletas, em princípio, só os usariam para deslocamentos pré e pós prova e, eventualmente, no abandono. A utilização maciça foi pros acompanhantes, que ganhavam um passe para o livre deslocamento.


Choveu forte a noite inteira em Chamonix, mas amanheceu sem chuva, embora com o céu carregadíssimo. Em Courmayeur, no entanto, o clima parecia maus aberto. Durou meia hora minha alegria. Logo começou a chover. Uma chuvinha fraca, mas que parecia ser duradoura. Mas a coisa tava pior nas montanhas. Tão pior que cortaram duas montanhas do percurso. A primeira, Tete de la tronche, era um desnível assustador, 1400m de subida em uns 7km. Com o corte, iríamos direto ao Refugio Bertoni e a primeira subida era só de 900m em 6km. Não melhorou tanto assim...

Courmayeur com sol
Courmayeur e eu cobertos...
Gilberto e Sibilla Antoniazzi. Infelizmente também não deu pra eles.
Como convém a toda boa prova com grande número de participantes (1800 inscritos), largada em ondas. Com meus resultados modestos, saí na última, 20 minutos depois do início oficial. O problema é que os cortes durante a prova eram por tempo bruto, então já saí 20 minutos mais perto de espirrar fora.

Eu nem consigo imaginar como seria subir o Tete de la Tronche. Subir até o Bertone já foi um absurdo. A subida,  além de forte, não acaba nunca! Tava com 3 camadas de roupa por causa da previsão do tempo e passei calor no começo. E não fui o único, tava engraçado ver, já no primeiro quilômetro, um monte de gente parando e desvestindo calça e jaqueta. Na subida ao Bertoni, quase todo o percurso foi no mato, então só tivemos noção do frio quando efetivamente chegamos lá, um descampado onde ventava mais forte, sem a proteção das árvores.


Apesar das ondas de largada, teve muita fila nas trilhas. Senti mais isso na travessia do Bertoni pro Bonatti. Toda no alto, não tinha grandes desníveis e aproveitei pra correr. Mas toda hora aparecia um tranca-trilha na frente. Pior, ali começou a nevar. E não dava pra ficar muito bonzinho porque com as mudanças, o primeiro corte em Arnuva, próxima parada, ficou apertado.

Do Bonatti a Arnuva, uma descida de uns 250m de desnível. Quando deu, corri. E cheguei a 20 minutos do corte. Uffs. De Arnuva iríamos subir ao Grande Col Ferret. Essa foi a maior montanha mantida e prometia ser dura: 800m de subida em 5km.


O negócio foi feio. Não liguei pros tranca-trilhas até porque não tava muito melhor. E ir num ritmi ligeiramente inferior ao possível me preservaria. A partir de 2000m de altitude nevava. E a neve apertava, tudo branco, exceto a trilha. Perto do topo, uma neblina pesada. Mas o pior foi lá em cima. Sem a proteção da própria montanha - afinal estávamos no topo - a nevasca tava forte. Eu não enxergava nada, não sabia pra onde ir, um vento forte, a neve despencando, neblina, frio... saí desesperado de lá, instinto de sobrevivência puro!


Desci uns 2 quilômetros até conseguir pensar novamente. A neve ainda caía forte e o vento continuava, mas a situação deixara de ser desesperadora. A trilha tava boa pra correr, era larga e não escorregava. Mas quando baixamos o suficiente pra deixar de nevar e passar a cair chuva, as condições do terreno se deterioraram. Tomei dois tombos sensacionais, um deles daqueles em você vê suas próprias pernas passando pela cabeça.

Descendo...

... e caindo.
Já bem perto de La Fouly, uma parada rápida num bar fechado, com uma fonte onde reabasteci de água. A surpresa foi encontrar umas cervejas na água gelada. O português com quem conversava não teve dúvida. Simplesmente pegou uma, abriu e bebeu... se estava lá, era pra isso, ó pá!

Eu já não lembrava dos novos tempos de corte e temia estar fora. Cheguei em La Fouly por volta de 17h30 e achava que tinha ficado no corte das 16h45. No entanto, meu francês é que merecia ser cortado, entendera errado quando anunciaram os novos cortes e ainda estava bem na prova: o corte era 18h45, tinha aberto uma boa gordura. E falando em gordura, fiz uma parada mais longa pra comer decentemente. Tinha muita fome. Comi salame, pão, sopa, bolacha e parti pra mais uma subida. A de Champex era, teoricamente, a mais fácil.

Na prática, no entanto, me detonei lá. Me senti muito cansado na subida, não tão íngreme como as outras (Lembrava a Trilha do Pai Zé, do Jaraguá, só que bem mais longa), mas com a chuva castigando. Comecei a ser eu o próprio tranca-trilha dos outros, mas deixava rapidinho o pessoal passar. A cada recolhida era uma descansada. Mesmo assum cheguei morto em Champex. 20h30, tinha 3 horas pra chegar em Bovine e tava a ponto de desistir.

Resolvi comer antes, pra ver se clareava as idéias. E lá encontrei o Décio da D-Run de Campinas, fazendo apoio para alguns atletas dele, depois de ter ele próprio feito a TDS. Quando os outros brasileiros partiram, ele me deu uma bela ajuda com as luvas, pegou isotônico e me deu apoio moral. Isso, mais o macarrão que comi, renovaram-me. Ia tentar chegar a Bovine!

Mnham...
A noite já tinha caído e a chuva apertara lá fora. Liguei a headlamp, saí e quase voltei ali mesmo. Friiio. Estava com as roupas todas molhadas e o que tava seco deixou de estar. Com a parada o corpo tava frio e eu mal conseguia coordenar os movimentos de andar. Pra piorar, como troquei o boné pela touca (não dava pra usar o headlamp com o boné porque a aba bloqueava o facho de luz), tinha perdido a única proteção contra a chuva para os óculos. Ainda bem que a saída pra Bovine foi cruzando a cidade e tinha uns malucos torcendo, acabei continuando e com o movimento o corpo deu uma esquentada e parou de congelar.

Posso dizer até que durante uns 4 km a corrida foi ótina pra mim. Não sentia frio, chuva não incomodava, tava num estado alfa. Mesmo quando começou a subida, tava bem. O problema é que subimos muito e a chuva virou neve lá em cima. Pior, com o córregos e lamaçal que encontramos no caminho, os meus pés, até então secos, ficaram completamente enxarcados. Paramos de subir e agora estávamos numa trilha a 2000m com neve, lama e um vento doído. Mas achava que estava perto porque escutava um sino, que o pessoal ficava tocando pra incentivar.

O problema é que eu não via nenhuma base naquela escuridão. E o sino lá, blem-blem... até que passamos o sino. Olhei pro lado e a lanterna iluminou... a vaca! Era uma porcaria de uma vaca! Era Bovine, mas não a bovine que queria...

Não é a "minha" vaca, mas vale a lmbrança...
 Demorou mais meia hora e mais vacas até chegar de fato a Bovine. Basicamente um barracão no meio do nada, gelado, lotado de corredores, vários bem mal. Comi uma barra de Honey Stinger, não dava pra ficar disputando um prato de sopinha. Caí fora de lá, antes que congelasse ficando parado.

Na saída do barracão, um susto. Quase bati de frente com uma vaca, que já estava enfiando a cara dentro do refúgio, pela porta de saída. A descida foi cruel. Não parava de nevar, tava sozinho naquela trilha escura e o chão mais liso que quiabo. Quando não era isso era lamaçal, com o pé até o tornozelo naquele barro gelado. Mas quando começou a descida propriamente dita piorou pra mim. A aderência era melhor nas pedras (embora um eventual escorregão fosse muito mais danoso), mas os quadríceps doíam demais a cada degrau de pedea descido. Percebi que estava lento, os outros competidores me ultrapassavam e abriam. Bateu o cansaço mental e comecei a ficar preocupado comigo mesmo, porque não tava enxergando nada, mas demorei uns 20 minutos pra perceber o ridículo da situação: tava difícil de enxergar porque a pilha da lanterna tava acabando... nada errado com meus olhos, portanto. Mas a cabeça...

Cheguei a Trient absolutamente morto, caminhando com dificuldade. E torcendo pra não encontrar o Décio, porque sabia que ele ia me convencer a continuar. Só faltava um morro, Catogne, mas a altimetria dele era tão ou mais dura que a de Bovine. Mas quando entrei no acampamento e vi aquele treco lotado de gente caindo aos pedaços, uma disputa enorme pra conseguir qualquer comida ou bebida, desisti. Com dor no coração, perguntei onde abandonava. Andei ainda mais uns 200m até o posto de abandono, quase desisti de abandonar, mas quando dei meu número pro cara registrar, senti um alívio monstro.

No busão pra Chamonix fiquei imóvel. Qualquer movimento doía. E quando desci, comecei a tremer incontrolavelmente, já que sair do quentinho do ônibus pro ar gelado da cidade, sob chuva e com as roupas molhadas, foi um choque. A caminhada de 500m até o hotel foi longa, até porque errei o caminho. E também porque às 3h00 da manhã tinha gente na rua, esperando os corredores chegarem e fazer festa. E isso embaixo de chuva!


Banheira com água quente, relax, baixa a adrenalina...dormi tranquilo. Duro foi no dia seguinte, acordar e acompanhar a cidade inteira parada nas ruas, aplaudindo os finishers da Ultra Trail. Dor no coração. Até porque, depois da dormida, nem tava tão quebrado assim... aplaudi fervorosamente cada um daqueles caras que chegavam, em especial o Sidnei Togumi, a quem acompanhei nos dois últimos km. Eles mereciam muito o meu respeito. Afinal, onde desisti, eles continuaram até o final.

Sidnei Togumi

A chegada