sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A segunda vez que desisto - Ultra Trail Harricana de Charlevoix

Foi na empolgação. Eu tinha visto essa prova em algum site, tinha achado interessante por ser perto da casa de minha irmã, mas as inscrições estavam encerradas. Pena, achei que não era dessa vez que ia fazer a Ultra Trail Harricana de Charlevoix, região ao nordeste de Québec, cheia de verde, parques nacionais etc.

Só que na viagem de férias, sem querer topamos com um Festival que nem minha irmã sabia que tava rolando, o Festival du Plein Air, que justamente divulgava atividades ao ar livre, ao que os canadenses fazem muito, por aproveitarem a ótima infraestrutura de seus parques nacionais. Além disso, era verão, época de acampamentos e trilhas. E lá tinha um estande divulgando a prova... fiu conversar com o pessoal e eis que o cara que tava lá, meio no inglês, meio no espanhol, me disse que tinham sido liberadas mais 20 vagas para a prova. Aiaiaiai...

Foi na empolgação. Me inscrevi, pra voltar para Québec em setembro... a prova, de 65km, até encaixava bem na rotina de treinos para o Half Misión, aparentemente.

Enfim, lá eu descobri no briefing que: 1) se você não fala francês, não vai entender nada; 2) tinha que levar um guizo para afastar ursos e caçadores; 3) a prova era de estréia, eles não sabiam muito bem se as barreiras de tempo estavam adequadas; 4) eu era praticamente o único estrangeiro de fato lá (depois descobri uns 2 ou 3 franceses e um colombiano que morava em Montreal).

A prova era mais do que uma corrida, era um acampamentão em uma estação de esqui que estava sem neve. Muita gente passou o final de semana inteiro por lá, acampando, confraternizando. E embora fosse a primeira edição dos 65 km, a prova já existia há algum tempo, nas distâncias de 28, 10 e 5 kms. Nessa distância de 28km havia uma brasileira, Clarisse, que era amiga do organizador e que me mandou um e-mail muito amigável se apresentando e dizendo que ele estava animado pelo fato de ter gente de fora correndo. Cool!

Não era mesmo muito provável um estrangeiro numa prova que tinha 150 atletas no interior do Canadá. E aparentemente, 149 desses atletas eram fortes, bons corredores. A exceção era eu... 

O ônibus sairia da largada às 5h00 e, portanto, teria que acordar às 4h00 para pegar um táxi da cidade (La Malbaie) até lá. Agendei o táxi para 4h30 e... nada! O filho da puta não apareceu!!! Acordei o cunhado às pressas e voamos até lá, fizemos o trajeto de meia hora em uns 10 minutos!! Mas deu tempo, fui o último a chegar e a entrar no ônibus. Uffs!! Bom, passamos 1h00 no ônibus até a largada, onde deu para dar uma dormida. 



A largada era na sede do Parque Nacional Haute-Gorge. Seguiria uns 08km em trilhas internas fáceis e depois sairíamos para a Travessia de Charlevoix, num território fora de parques. Nesses 08 km, em trilha fácil, eu já percebi que o pessoal não tava de brincadeira. Tava um pouco abaixo de 6min/km e estava entre os últimos, a galera sentando a bota. Se eu soubesse o que vinha pela frente...

Quando começamos a travessia, o bicho começou a pegar. Foi, basicamente, um single track que começou no km 08 e só terminou lá pelo km 31! Embora fosse um dos pontos de altimetria pesada em subida, nem senti tanto isso, o problema era mesmo o terreno, muito irregular. Trilha cheia de pedras, raízes, troncos atravessados para serem escalados e muito úmida, com vários lamaçais. Algumas pinguelas de madeira sobre riozinhos me renderam ótimas escorregadas (madeira lisa e molhada é beeem escorregadia), alguns lamaçais me fizeram ficar com as duas pernas fincadas até as coxas no lodaçal. E eu sou habitualmente lento nessas condições. Pior, sou lento para caminhar também e caminhar era obrigatório em vários trechos assim.

Fiquei bem pra trás. As pessoas passavam por mim, caminhando, lidando melhor com as trilhas, e eu ficando... o esforço também começou a me dar cãimbras e fiquei muito tempo sozinho na prova. Quando saímos das trilhas e ingressamos em um trecho fácil, em estrada de terro aberta e e descida, percebi que não tava conseguindo correr. Pior, comecei a fazer conta e percebi que estava muito lento para as 10 horas que eram limite da prova. Forcei, forcei, mas não ia! 

Cheguei no posto do km 42 com 6h29. O corte era 6h30. Mas tinha 23km para serem feitos em 3h30, e adiante tinha mais trechos de single track até o km 56 pelo menos. Eu teria que tirar tempo onde dava pra correr para ficar na prova e isso tava difícil. Meus pés estavam detonados, o Mizuno Harrier, embora com bom grip (exceto na madeira lisa e molhada), era muito leve e me fazia sentir todas as irregularidades do terreno na sola dos pés. Desisti. Comi o nhoque, a coca-cola, as frutas e me retirei, sem arrependimento nenhum. 

Logo depois chegaram outros corredores (então eu não era o último?). Um deles desistiu também, era o colombiano Oliver Córdoba, que perdera muito tempo por se perder. Coincidentemente, amigo da brasileira Clarisse, que eu acabei não encontrando. Os outros estavam em trio, correndo juntos e terminaram a prova em 10h51. Eu iria terminar um pouco antes deles, bem fora das 10h00. O problema é que devem ter alterado alguma coisa e classificaram o pessoal até 11h00. Se eu soubesse, acho que arriscaria. Desisti sem estar totalmente exaurido, dava pra continuar, o problema era a barreira de tempo mesmo.

video

Não deu. Paciência. Mas se encarar como treino foi bom. É o que dá pra fazer. Agora é lamber as feridas e continuar.

3 comentários:

Fábio Namiuti disse...

Pauleira master, hein, Nishi? Parabéns pelo que você conseguiu fazer por lá.

Ricardo Mizumoto disse...

Caramba, só prova pauleira esse ano Nishi!! Legal esse vídeo, heim...
Eu sempre tive curiosidade (vontade??) de correr uma prova de montanha mas nem local para treino conheço. Estou indo para a Maratona de BsAs e até o final do ano pretendo tentar alguma prova de montanha, pra sentir como é...recomenda alguma? Se for perto de Sp melhor ainda.

Abraços
Ricardo Mizumoto

Ricardo Nishizaki disse...

Valeu Fábio!!

Xará Mizumoto, para correr aqui perto de SP tem duas organizadoras que realizam provas constantemente.

Uma é a tradicional http://corridasdemontanha.com.br, organizadora da Copa Paulista, participante do Circuito Brasileiro. A próxima etapa é em Campos do Jordão, 29/09, mas vai ter uma na Cantareira em 27/10, ou seja, SP capital! Algumas provas são mais distantes, mas outras são bem próximas, como Mairiporã, Atibaia e Paranapiacaba (que já fiz duas vezes e é imperdível)

Outra é a Ritmo Certo, do Naval, corredor conhecido de montanha, que começou a organizar recentemente o Circuito Metropolitano, com etapas em Guarulhos, Mogi e até mesmo em SP. Tudo muito próximo. (www.ritmocerto.esp.br)

Além disso, a TH5, da Baixada, todo ano tem a Corrida das Torres, em Bertioga, uma prova que também já fiz duas vezes e é bem pedreira. (www.th5eventos.com.br).

O negócio é ame ou deixe. Tem gente que odeia, tem gente que adora. Normal, o interessante é fazer uma vez e ver se vc gosta mesmo ou não... abração!!