domingo, 23 de setembro de 2012

Treinos da volta

Ainda sem rumo depois da Mont Blanc, os treinos da volta serviram apenas para me manter em atividade. Sem foco, sem esse negócio de treinar pra algo, e ainda sentindo o cansaço, os treinos saíram meio irregulares, ora bons, ora nem tanto.

Na quinta-feira depois do retorno, rodei uns 09km, de Asics GT com o também retornante de férias Mocotó, rodando e conversando. Na terça-feira 18/09, um dos dias mais quentes do ano, resolvi me testar um pouco e fiz os treinos de tiro com a galera. Eram 5 tiros de 1.000m seguidos de educativos, um trote em descida e um sprint na subida da rampinha atrás do banheiro. Eu fui rápido nos três primeiros tiros. Puxei todo o pelotão no tiro, a uns 4min/km e no sprint me senti um Usain Bolt. Mas nos dois últimos tiros senti. Consegui manter o ritmo, mas fiz muita força no final (uns 09k, de Nike Free, com o aquecimento mais longo). Na quarta retornei à musculação e me arrependi amargamente disso na quinta, de tanta dor muscular. Nessa quinta o treino foi uma rodagem de 50min, em que, calçado com o Mizuno LSD, fiz 09k, ou seja uns 5min35/km, leve.

Por fim, no sabadão, como o pessoal programou um teste de 05km, uma coisa que eu absolutamente não queria fazer de jeito nenhum, e como tinha um compromisso familiar já começando cedo, saí pra dar uma rodadinha leve, sem compromisso. Saí de casa, calçando o Asics GT, fui até o Ibira, dei uma volta lá e voltei, sem me importar com ritmo nem nada, trotando. Acho que deu uns 14km e 1h40, mas nem marquei direito, nem era essa a intenção.

Vamos começar a pensar o que faço até o final do ano e o que programo para o ano que vem... só sei que não dá pra voltar pra Mont Blanc pelo critério técnico: para correr em 2013 eles passaram a exigir 02 pontos em provas qualificatórias de 20111 e 2012 e eu só tenho o pontinho de Salta. E conseguir o segundo ponto até o final desse ano é perrengue demais. Para ter um singelo ponto a prova já tem que ser muuuito dura (pra ter idéia, o duríssimo K42 de Villa Angostura, com os 2100m de desnível, não vale nada) e além disso teria que viajar de novo pra fora. Complicado.

sábado, 22 de setembro de 2012

Desafio Pharmaton - Treinão cronometrado 10K

E não é que esse é o terceiro final de semana seguido com alguma prova pra fazer? A Mont Blanc foi aquele negócio, prova alvo e coisa e tal. A Türllerseelauf foi uma prova simples, pequena, mais para me manter em atividade, mas onde acabei fazendo uma forcinha no final. E agora teve o treinão do Desafio Pharmaton, que foi um pouco mais do que um treinão, já que teve linha de largada e chegada e chip pra marcar tempo. Mais ainda, com o nosso cadastramento prévio no facebook, seriam encaminhados pelos nossos perfis mensagens nos momentos exatos em que partíssemos pro treino e na chegada.


O legal é que no banner convocando pro treino quem aparece lá? Eu, hehehe. Eu e minha bela barriguinha. O bom é que ninguém reparou nisso, já que a Grazi aparece em primeiro plano e a Luana do meu lado. Quem vai reparar na barriga do japonês baixinho, oras?? 

Essa foto foi tirada no primeiro treinão, onde eu estava marcando o ritmo do nosso bonde trilopense dos 5min45/km. Como todos ali correm fácil mais forte do que isso, a foto saiu com sorrisos, tranquilidade...

Esse treinão foi realizado também na USP, mas na tradicional volta de 10k, por sinal o mesmo percurso da Volta da USP, prova que marcará o fecho do Desafio Pharmaton. Bacana para que aqueles que não conheciam o percurso (caso do André Savazoni, que treina em Jundiaí) pudessem ter ideia de como ele é, da subida da Biologia e da descida do Matão, entre outras particularidades. 

Eu ia de novo marcar um ritmo tranquilo no bonde dos 5m45/km, de novo calçado o Mizuno LSD. No entanto, do povo marcado, só estávamos lá eu e Grazi. Assim, quando largamos, embora tenhamos saído devagar, acabamos naturalmente forçando levemente um pouco o ritmo. Na subida do cavalo encontramos o povo dos 5min/km, mas eu tive que dar uma saída pro banheiro do Bosque da Física. Fiquei um pouco pra trás, mas alcancei o pessoal na descida da biologia, quando encontrei um cara que me perguntou da Mont Blanc.

E fomos nesse papo até o final. Papeamos tanto que até erramos a chegada, chegando com 50 min pros 10k, ou seja, 5min/km. Até rápido pra quem tava simplesmente querendo rodar e está meio quebrado da Mont Blanc. 


No pós-prova, não ganhei nada do que foi sorteado. Mas acho bom, já que sigo firme, sem "gastar" a sorte, para o sorteio da viagem para a Maratona da Disney. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Resumo do mês - agosto/2012

Registro aqui o meu último treino antes do CCC, um 10k rodado em Turim, num ritmo tranquilo de 5min15/km, conhecendo o parque às margens do Rio Pó e administrando o calor que tava.

171,5km em 14 treinos
21,1km em 1 Meia Maratona
60km no CCC - Mont Blanc incompleto
Total: 252,6km em treinos e provas (maior rodagem mensal)

3 séries de musculação
2 séries de escada

domingo, 16 de setembro de 2012

Türlerseelauf 2012 - Affortern am Albis - 14,1km

Depois da frustração de não completar a Mont Blanc, descolei mais uma corridinha nessas férias na Europa. Uma tal de Türlerseelauf, corrida na cidadezinha de Alfortern am Albis, nos subúrbios de Zurique, facilmente alcançável pelo incrível sistema de transportes públicos suíço. Como o site e o regulamento estavam todos em alemão, mandei um e-mail pro organizador em inglês perguntando qual o esquema, se dá para um brasileiro em férias participar. Não sabia se era um evento meio fechado porque, pelo que entendi, essa prova é também uma etapa de um campeonato regional de Zurique. Mas o organizador, Hans Peter, foi muito solícito e simpático, e me deu não só o aval como todas as instruções necessárias.

Chegar lá foi fácil. O trem da CPTM de lá é bem parecido com o daqui, exceto o fato de ser limpo, moderno, ter banheiro, dois andares, ter lugar pra todo mundo ir sentado... a corrida era às 15h30 e o trem estava cheio de atletas indo pra prova. Bom, pelo menos, não ia me perder na cidade pra chegar na largada, só seguir a boiada. E a base da prova era num centro esportivo simples, com pista de atletismo, campos de futebol, ginásio, parecia o Centro Olímpico do Ibira, só que melhor e mais bem equipado. Como a gente estava numa cidade de uns 5.000 habitantes como é São Paulo, essas pequenas diferenças são plenamente justificáveis...



Achei esquisito que em tanta organização, não tivessem achado meu número. Inscrição tava lá, mas o número não. Mas aí tudo se resolveu de forma simples, um outro número foi designado. A prova não tinha chip, era pouca gente. Eu me arrumei e fui pra largada. Tava um sol brasileiro, calor, e se eu tava sentindo, imagina os brancões de lá!

Türlerseelauf, basicamente, é uma volta no Türlersee, um laguinho que tem ali perto. A corrida basicamente era uma subida de 3km até o lago, onde a gente o contornaria e voltaria em descida até a chegada, no próprio centro esportivo.



Saí bem devagar, a uns 6min/km. Até porque a subidinha do começo, embora não fosse muito íngreme, era extensa, 3km em desnível. Depois era plano, ao redor do lago, onde tinha um pessoal curtindo o sabadão de sol, fazendo picnic, ou mesmo indo ver a prova. Divertido o jeito deles de incentivar: "hop-hop-hop!!"

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Gradativamente fui me soltando e acelerando. E fui passando o povo, passando, sem fazer muita força, administrando o calorão. Na descida de volta dos 3 últimos quilômetros, dei uma aceleradinha e fechei  os 14,1km em 1h12min35s9, 5min08/km Muita precisão para uma prova sem chip. Mas bateu com o meu relógio. Prova sem chip e sem medalha também. E sem camiseta. Só alguns brindezinhos, como uma geléia caseira e uns cereais. Tudo muito simples, mas certinho. O preço pago, também, era bem baixo para padrões suíços, praticamente um combo do McDonald´s.

No final fui abordado por um senhor. Era o Hans Peter, organizador da prova. Sei lá como ele me reconheceu como brasileiro. Será que era pelo meu gingado? Será que era porque eu era o único ser de um grupo étnico diferente na região? Será que era pela camiseta laranja com dizeres em português? Enfim, conversamos um pouquinho, agradeci pela prova e voltei pro hotel com a missão de mais uma prova cumprida. Sai nhaca da Mont Blanc! Lógico que dessa vez o desafio era bem menor, mas pelo menos não volto pro Brasil com um gostinho tão ruim. Pena que não teve medalha.


Obs: anteontem, sexta-feira, chegou em casa um envelope da prova. Quando abri... era o número da prova que eles não tinham achado lá. Organizados demais, mandaram para o endereço dos atletas os números de peito, mas não previram a possibilidade de, em uma prova tão pequena, existir um cara lááá, do Brasil!





quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CCC Mont Blanc: O primeiro abandono a gente nunca esquece


As previsões meteorológicas nos dias que antecediam a prova não eram nada boas. Uma semana antes já se falava em frio e chuva. Mas chegando na Europa 5 dias antes, num calor de mais de 30 graus em Turim (que fica pertinho de Chamonix, no maximo 200 km), tinha esperança que eles fossem tão ruins nessa arte de adivinhar o tempo como são os brasileiros.

Mas não são. E previsão do tempo é quase uma obsessão pra quem vive nos Alpes, percebi. Em Chamonix a previsão do período fica afixada na vitrine das farmácias, nas recepções dos hotéis e no meu celular, bombardeado por SMS da organização da prova, cada vez mais sombrios "TDS, CCC, UTMB Attention! Weather forecast: rain, snow at 2000m, wind, cold. Temperatures dropping below -5 C. Have winter clothing"

Cheguei na quarta e visitando o salão de expositores já tomei minha primeira lição. Sim, se eles falaram que ia chover à tarde, acredite! Cheguei no hotel todo ensopado. Pelo menos serviu de aquecimento pro que vinha em sequência. No dia seguinte fui pegar o kit e mais chuva. A retirada foi bem demorada, com filas grandes por um bom motivo: o check-list dos equipamentos obrigatórios. No final das contas acabaram não sendo tão rigorosos. Ainda bem porque ficar tomando chuva na fila tava complicado. Fora essa complicação meteorológica tudo me pareceu extremamente organizado. Impressionante, por exemplo, o sistema Live Trail, que twitava e facebookeava automaticamente a cada posto de passagem vencido durante a prova. Depois pude perceber que o negócio funcionou direitinho.



Eu fui designado pro busão das 7:15, que nos levaria a Courmayeur, na Itália, onde largaríamos. Aliás, impressionante também o esquema de ônibus, ligando não só a largada e a chegada, como tambén outros postos chave da corrida, como La Fouly, Champex, Trient, Vallorcines, e isso sem contar os outros postos que faziam parte da UTMB classica, como Les Contamines, St. Gervais... e os ônibus ficaram circulando o tempo inteiro, do começo do TDS, na quinta, até o final da UTMB, no domingo! Cobrindo três países!! O negócio é gigantesco! Ah, o mais impressionante é que não estava restrito aos atletas. Ao contrário, os atletas, em princípio, só os usariam para deslocamentos pré e pós prova e, eventualmente, no abandono. A utilização maciça foi pros acompanhantes, que ganhavam um passe para o livre deslocamento.


Choveu forte a noite inteira em Chamonix, mas amanheceu sem chuva, embora com o céu carregadíssimo. Em Courmayeur, no entanto, o clima parecia maus aberto. Durou meia hora minha alegria. Logo começou a chover. Uma chuvinha fraca, mas que parecia ser duradoura. Mas a coisa tava pior nas montanhas. Tão pior que cortaram duas montanhas do percurso. A primeira, Tete de la tronche, era um desnível assustador, 1400m de subida em uns 7km. Com o corte, iríamos direto ao Refugio Bertoni e a primeira subida era só de 900m em 6km. Não melhorou tanto assim...

Courmayeur com sol
Courmayeur e eu cobertos...
Gilberto e Sibilla Antoniazzi. Infelizmente também não deu pra eles.
Como convém a toda boa prova com grande número de participantes (1800 inscritos), largada em ondas. Com meus resultados modestos, saí na última, 20 minutos depois do início oficial. O problema é que os cortes durante a prova eram por tempo bruto, então já saí 20 minutos mais perto de espirrar fora.

Eu nem consigo imaginar como seria subir o Tete de la Tronche. Subir até o Bertone já foi um absurdo. A subida,  além de forte, não acaba nunca! Tava com 3 camadas de roupa por causa da previsão do tempo e passei calor no começo. E não fui o único, tava engraçado ver, já no primeiro quilômetro, um monte de gente parando e desvestindo calça e jaqueta. Na subida ao Bertoni, quase todo o percurso foi no mato, então só tivemos noção do frio quando efetivamente chegamos lá, um descampado onde ventava mais forte, sem a proteção das árvores.

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Apesar das ondas de largada, teve muita fila nas trilhas. Senti mais isso na travessia do Bertoni pro Bonatti. Toda no alto, não tinha grandes desníveis e aproveitei pra correr. Mas toda hora aparecia um tranca-trilha na frente. Pior, ali começou a nevar. E não dava pra ficar muito bonzinho porque com as mudanças, o primeiro corte em Arnuva, próxima parada, ficou apertado.

Do Bonatti a Arnuva, uma descida de uns 250m de desnível. Quando deu, corri. E cheguei a 20 minutos do corte. Uffs. De Arnuva iríamos subir ao Grande Col Ferret. Essa foi a maior montanha mantida e prometia ser dura: 800m de subida em 5km.

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O negócio foi feio. Não liguei pros tranca-trilhas até porque não tava muito melhor. E ir num ritmi ligeiramente inferior ao possível me preservaria. A partir de 2000m de altitude nevava. E a neve apertava, tudo branco, exceto a trilha. Perto do topo, uma neblina pesada. Mas o pior foi lá em cima. Sem a proteção da própria montanha - afinal estávamos no topo - a nevasca tava forte. Eu não enxergava nada, não sabia pra onde ir, um vento forte, a neve despencando, neblina, frio... saí desesperado de lá, instinto de sobrevivência puro!

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Desci uns 2 quilômetros até conseguir pensar novamente. A neve ainda caía forte e o vento continuava, mas a situação deixara de ser desesperadora. A trilha tava boa pra correr, era larga e não escorregava. Mas quando baixamos o suficiente pra deixar de nevar e passar a cair chuva, as condições do terreno se deterioraram. Tomei dois tombos sensacionais, um deles daqueles em você vê suas próprias pernas passando pela cabeça.

Descendo...

... e caindo.
Já bem perto de La Fouly, uma parada rápida num bar fechado, com uma fonte onde reabasteci de água. A surpresa foi encontrar umas cervejas na água gelada. O português com quem conversava não teve dúvida. Simplesmente pegou uma, abriu e bebeu... se estava lá, era pra isso, ó pá!

Eu já não lembrava dos novos tempos de corte e temia estar fora. Cheguei em La Fouly por volta de 17h30 e achava que tinha ficado no corte das 16h45. No entanto, meu francês é que merecia ser cortado, entendera errado quando anunciaram os novos cortes e ainda estava bem na prova: o corte era 18h45, tinha aberto uma boa gordura. E falando em gordura, fiz uma parada mais longa pra comer decentemente. Tinha muita fome. Comi salame, pão, sopa, bolacha e parti pra mais uma subida. A de Champex era, teoricamente, a mais fácil.

Na prática, no entanto, me detonei lá. Me senti muito cansado na subida, não tão íngreme como as outras (Lembrava a Trilha do Pai Zé, do Jaraguá, só que bem mais longa), mas com a chuva castigando. Comecei a ser eu o próprio tranca-trilha dos outros, mas deixava rapidinho o pessoal passar. A cada recolhida era uma descansada. Mesmo assum cheguei morto em Champex. 20h30, tinha 3 horas pra chegar em Bovine e tava a ponto de desistir.

Resolvi comer antes, pra ver se clareava as idéias. E lá encontrei o Décio da D-Run de Campinas, fazendo apoio para alguns atletas dele, depois de ter ele próprio feito a TDS. Quando os outros brasileiros partiram, ele me deu uma bela ajuda com as luvas, pegou isotônico e me deu apoio moral. Isso, mais o macarrão que comi, renovaram-me. Ia tentar chegar a Bovine!

Mnham...
A noite já tinha caído e a chuva apertara lá fora. Liguei a headlamp, saí e quase voltei ali mesmo. Friiio. Estava com as roupas todas molhadas e o que tava seco deixou de estar. Com a parada o corpo tava frio e eu mal conseguia coordenar os movimentos de andar. Pra piorar, como troquei o boné pela touca (não dava pra usar o headlamp com o boné porque a aba bloqueava o facho de luz), tinha perdido a única proteção contra a chuva para os óculos. Ainda bem que a saída pra Bovine foi cruzando a cidade e tinha uns malucos torcendo, acabei continuando e com o movimento o corpo deu uma esquentada e parou de congelar.

Posso dizer até que durante uns 4 km a corrida foi ótina pra mim. Não sentia frio, chuva não incomodava, tava num estado alfa. Mesmo quando começou a subida, tava bem. O problema é que subimos muito e a chuva virou neve lá em cima. Pior, com o córregos e lamaçal que encontramos no caminho, os meus pés, até então secos, ficaram completamente enxarcados. Paramos de subir e agora estávamos numa trilha a 2000m com neve, lama e um vento doído. Mas achava que estava perto porque escutava um sino, que o pessoal ficava tocando pra incentivar.

O problema é que eu não via nenhuma base naquela escuridão. E o sino lá, blem-blem... até que passamos o sino. Olhei pro lado e a lanterna iluminou... a vaca! Era uma porcaria de uma vaca! Era Bovine, mas não a bovine que queria...

Não é a "minha" vaca, mas vale a lmbrança...
 Demorou mais meia hora e mais vacas até chegar de fato a Bovine. Basicamente um barracão no meio do nada, gelado, lotado de corredores, vários bem mal. Comi uma barra de Honey Stinger, não dava pra ficar disputando um prato de sopinha. Caí fora de lá, antes que congelasse ficando parado.

Na saída do barracão, um susto. Quase bati de frente com uma vaca, que já estava enfiando a cara dentro do refúgio, pela porta de saída. A descida foi cruel. Não parava de nevar, tava sozinho naquela trilha escura e o chão mais liso que quiabo. Quando não era isso era lamaçal, com o pé até o tornozelo naquele barro gelado. Mas quando começou a descida propriamente dita piorou pra mim. A aderência era melhor nas pedras (embora um eventual escorregão fosse muito mais danoso), mas os quadríceps doíam demais a cada degrau de pedea descido. Percebi que estava lento, os outros competidores me ultrapassavam e abriam. Bateu o cansaço mental e comecei a ficar preocupado comigo mesmo, porque não tava enxergando nada, mas demorei uns 20 minutos pra perceber o ridículo da situação: tava difícil de enxergar porque a pilha da lanterna tava acabando... nada errado com meus olhos, portanto. Mas a cabeça...

Cheguei a Trient absolutamente morto, caminhando com dificuldade. E torcendo pra não encontrar o Décio, porque sabia que ele ia me convencer a continuar. Só faltava um morro, Catogne, mas a altimetria dele era tão ou mais dura que a de Bovine. Mas quando entrei no acampamento e vi aquele treco lotado de gente caindo aos pedaços, uma disputa enorme pra conseguir qualquer comida ou bebida, desisti. Com dor no coração, perguntei onde abandonava. Andei ainda mais uns 200m até o posto de abandono, quase desisti de abandonar, mas quando dei meu número pro cara registrar, senti um alívio monstro.

No busão pra Chamonix fiquei imóvel. Qualquer movimento doía. E quando desci, comecei a tremer incontrolavelmente, já que sair do quentinho do ônibus pro ar gelado da cidade, sob chuva e com as roupas molhadas, foi um choque. A caminhada de 500m até o hotel foi longa, até porque errei o caminho. E também porque às 3h00 da manhã tinha gente na rua, esperando os corredores chegarem e fazer festa. E isso embaixo de chuva!


Banheira com água quente, relax, baixa a adrenalina...dormi tranquilo. Duro foi no dia seguinte, acordar e acompanhar a cidade inteira parada nas ruas, aplaudindo os finishers da Ultra Trail. Dor no coração. Até porque, depois da dormida, nem tava tão quebrado assim... aplaudi fervorosamente cada um daqueles caras que chegavam, em especial o Sidnei Togumi, a quem acompanhei nos dois últimos km. Eles mereciam muito o meu respeito. Afinal, onde desisti, eles continuaram até o final.

Sidnei Togumi

A chegada