terça-feira, 2 de novembro de 2010

Já que pediram fotos...

Escolher a Maratona de Bilbao como parte do meu calendário misto de corridas e viagens de turismo foi simples: dentro das opções durante as minhas férias, Bilbao surgiu como uma oportunidade que ainda não tinha tido de correr uma maratona noturna. Além disso, eu ainda não conhecia a Espanha e seria uma chance de mergulhar a fundo no país basco, de Guernikas, ETAs e uma língua totalmente diferente, mas com a vantagem de me socorrer do velho e bom espanhol nos momentos de aperto.

De fato, o idioma basco não se parece com nada. Uma mistura de língua do Hopi-Hari com a língua da Xuxa em um sotaque espanhol, mas com palavras absolutamente estranhas. Se em Bilbao as coisas eram mais fáceis, no interior, as placas de sinalização não davam muita chance aos poucos turistas presentes nessa baixa estação. Mas mesmo assim tudo foi muito tranquilo e fácil de entender, já que os museus e monumentos eram bilíngues.


A feira da maratona foi realizada em um pavilhão inflável erguido do lado do Guggenheim, um museu mais bonito por fora do que por dentro. Não tinha muita coisa e os poucos expositores presentes eram grossos demais para ter vontade de comprar qualquer coisa deles.


A própria desanimação da feira e a ausência completa de quaisquer faixas, indicações ou informações sobre a maratona me deixaram meio encucado, achando que seria um eventinho bem mixuruca. Mas, na hora da prova, apesar de o número de competidores não ser tão grande, parecia que a cidade inteira estava lá para ver. A temperatura estava ótima para correr, uns 15 graus, sem vento gelado, uma delícia.

A largada atrasou longos 15 minutos. O locutor falava algumas coisas em basco e eu não entendia nada. Falava em espanhol e eu também não entendia nada, porque falava ou muito rápido, ou cheio de firulas. Mas quando largou, belos fogos de artifício espocaram.

Saí em um ritmo tranquilo, curtindo a prova, já que a preparação tava longe de ser a ideal. Na semana que antecedeu a prova, já em férias, curtindo a Espanha, só corri um dia e foi pra pegar o passaporte que eu teinha esquecido no hotel, item indispensável pra pegar o carro que eu alugara. E a alimentação, então? O prato nacional basco, na verdade, são aperitivos: pintxos, que consistem em uns beliscos com pão, algum embutido e outros quitutes, tudo junto num palitinho. No dia da prova, então... twix e batata frita!


Mas logo o segundo quilômetro já mudava dos 6min/km iniciais para um 5min25/km, tranquilo, sem forçar. Tava correndo fácil e curtindo a prova. Havia muita gente assistindo, mas eles gritavam "benga, benga" pra mim de forma insistente. Ok, gosta quem quer, mas não é a minha praia. Pelo menos percebi que não era nada pessoal e que eles gritavam "benga" pra todo mundo. Depois é que minha irmã esclarece que na verdade era "venga", ou, em português, "venha", para incentivar os atletas. E com a tradicional incapacidade de os espanhóis pronunciarem o nosso "v".

A prova era composta por duas voltas de 21,1km, em um circuito bastante plano e favorável a bons tempos. A cada volta a gente passava umas 3 vezes pelo Guggenheim, tornando mais fácil a vida de quem estava lá para torcer pelos conhecidos. Assim, os maratonistas se cansaram de passar pelo museu. A prova também percorre o casco viejo (Centro histórico) da cidade e o Centro Novo, mais moderno, com avenidas mais largas, e ainda passando em frente ao meu hotel. Mas a parte mais complicada era a perna que saía da cidade e ia até uma cidade próxima. Um trecho reto, deserto e bastante solitário, além de não ser lá muito bonito.

Falando em algo não bonito, uma coisa que chamou muito a atenção na prova foi a presença de dois corredores peladões. Ou quase, já que eles vestiam tênis, meias, relógio e... número. De resto, tudo descoberto.  Achei até que os gritos de "benga" eram pra eles. De qualquer modo, os caras eram muito rápidos, de impressionar. Por volta do km 18 da prova, eles estavam apenas a uns 5 minutos dos quenianos que lideravam a prova. Mas acredito que eles estivessem participando só da meia-maratona, já que não os vi mais. De qualquer forma, o ritmo era também muito forte para um amador em meias-maratonas.


Apesar dos pintxos e bengas à mostra, curti a prova. Eu me senti bem, sempre gostei de correr à noite, coisa de biorritmo. Fiz "hang fives" com praticamente todas as crianças que estava no percurso, correndo feliz, com aquela sensação boa de liberdade que só a corrida te dá. Isso tudo fez com que eu passasse na marca da meia-maratona com  1h54, totalmente tranquilo, com os batimentos em um nível bastante controlado. Já que estava fácil, resolvi arriscar. O pessoal que estava no pelotão das 3h45 estava mais ou menos perto, a uns 6 minutos na minha frente, pelo que medi nas várias idas-e-vindas do percurso. Resolvi buscar. Acelerei o ritmo, passei o homem-aranha e cheguei a tirar uns 2 minutos desse pelotão quando, no km 28, senti a panturrilha beliscar: cãimbra.

Lá na frente, a prova já terminara, com a vitória do queniano Samwell Kalya, com um tempo que pouco significa a nível mundial: 2h19. Foi seguido por outros dois africanos, Benjamim Korir e Joseph Biwott.

Diminuí um pouco o ritmo, mas a perna continuava meio dura e então resolvi administrar pra terminar abaixo de 3h50. Só que, no km 32, cãimbrou de novo. E de novo no 36, desta vez endurecendo a perna de vez. Ali eu parei para alongar e resolvi tentar só baixar o meu recorde pessoal de 3h55. Assim eu toquei o resto da prova, acima de 6min por km, mas totalmente inteiro sob o ponto de vista fisiológico e cardiorrespiratório, para fechar em 3h52min50.




Meu melhor tempo, numa prova para a qual corri bem descompromissado, sem a melhor preparação do mundo, e ainda com a menor quantidade de dores pós-prova que eu já senti. No dia seguinte, seguindo viagem para Zaragoza, estava bem inteiro, um pouco dolorido, mas nada incapacitado. Nem as escadas me davam medo. Perfeito!!!

2 comentários:

Fábio Namiuti disse...

O Shigueo foi pedir foto, deu no que deu... ;-)

Parabéns (novamente) pelo recorde, bela marca!

Abraço e até qualquer corrida, vertical ou horizontal, por aí!

Fábio

Rodrigo Pacheco disse...

Opa melhor tempo numa maratona???
Os pelados estavam correndo atras de vc??? kkk