sábado, 15 de outubro de 2011

O que corredor de montanha faz nas férias??? Sobe montanha...

Este blog, embora se proponha a ser um mero registro pessoal das minhas provas e treinos, também serve como registro de outras coisas que eu queira guardar como interessantes. E resolvi escrever, pra não esquecer, da subida ao Vulcão Láscar durante as minhas férias.

Basicamente esse é o vulcão mais ativo da região do norte do Chile. Se eu não me engano, sua última erupção foi em 2006 e sobre ele paira uma constante fumacinha, indício de que está vivo, respirando. Não é, de longe, o vulcão mais alto da região (5.550m). Mas é bastante acessível para quem não é escalador ou alpinista como eu, já que a subida ao seu topo pode ser feita por uma caminhada.

Em 2009 eu já havia subido outro vulcão, o Toco, com seus 5.600m e considerado um dos mais "fáceis" da região, porque a caminhada até o seu topo é pouco íngreme. De fato, a única dificuldade que enfrentei foi mesmo a natural dificuldade em respirar com a altitude, mas a subida em si durou entre 1 hora e meia e 02 horas, e o ápice da dificuldade foi quando tive que mijar no caminho e... hiperventilei com o esforço de baixar duas camadas de calças...

Achei que o Láscar seria algo parecido. Como no caso do Toco, partiríamos já de uma base bem alta (5.000m no Toco, 4.800 no Láscar). E como eu já tinha tido uma experiência, esperava uma certa tranquilidade.Não foi exatamente isso. A caminhada até o topo é mais dura e íngreme, o terreno é um pouco pior e desta vez o grupo estava um pouco heterogêneo, já que minha irmã também tentou a subida, embora ela não tenha a mesma performance física que nós, todos ultramaratonistas (eu, Cassiano e Ana Míriam), exceto o guia, que embora não seja corredor, obviamente estava muito mais aclimatado que a gente (até porque ele, o Pedro, nasceu na montanha...).
Pausa a 5.200m
Eu fiquei pra trás como "seguro" da minha irmã, enquanto o pessoal seguia na frente. Acabei fazendo um ritmo mais lento do que seria o meu natural e isso me cansou muito. Quando ela desistiu e desceu junto com o guia, a 5.400m, a gente seguiu pro topo porque o caminho já era relativamente fácil e havia uma quase-trilha a nos guiar. Mas eu estava bem cansado. Mais do que a Ana e principalmente o Cassiano, que se beneficia por ser naturalmente mais adaptável à altitude, além de já estar mais aclimatado, com mais tempo em altitude por ter ido a San Pedro de Atacama de moto, enfrentando "pasos" de mais de 4.500m de altitude.

O guia ia se comunicando conosco por rádio, monitorando nossa velocidade e nossas condições. Depois de mais de 3 horas de caminhada e com quase 14h00 no relógio, o vento começava a soprar mais forte e havia mais formações de gelo ainda remanescentes do inverno. Mas quando chegamos a um platozinho menos íngreme, sabíamos que estávamos bem perto e as energias se renovaram. Estive a ponto de desistir no meio do trecho mais íngreme, e só não o fiz porque dava trabalho virar o corpo e voltar a descer... 

Chegamos em uma pedrona que era o nosso indicador de direção. Mas o cheiro cada vez mais forte de enxofre também servia como indicação. Dali tava muito perto. Só não sabia que era tão perto. Uma mera subidinha de 200m e pronto: a cratera do Láscar!!! Um buracão enorme, com umas fumacinhas saindo do nada, lá do fundo!! Um cheiro infernal de inferno, de enxofre. E um vento do cão, embora o dia estivesse absolutamente aberto e ensolarado!!



Pausa pra fotos e filminhos, 15 minutos lá em cima, no máximo, e toca a descer, porque o guia já estava nos chamando. E a descida foi punk. As pernas estavam tremendo, o terreno que era ruim pra subir, era pior pra descer, muita pedra solta conjugada com falta de firmeza nas pernas significaram uns 4 tombos pra mim. Nada de mais, mas escorrega daqui, escorrega dali, fui indo, meio joão-bobo, quase correndo. Quando o carro ficou visível, não tinha mais trilha. Descíamos pelo caminho mais curto, mais íngreme e mais capotável. Não ligaria muito se fosse rolando, mas achava que se ficasse de pé ainda assim seria mais rápido. Cheguei muito mais cansado do que em qualquer maratona que já tivesse feito. Respirava, mas o ar não vinha a 4.800m. Mas mesmo assm vinha mais do que a 5.550m... 


Descendo de volta a San Pedro, em uma viagem de 3 horas, tudo começou a voltar ao normal aos poucos. Mas é impressionante o que a altitude e a consequente falta de pressão atmosférica fazem. Mesmo para nós, em boa forma física, foi bastante penoso. Dor de cabeça constante no vulcão, falta de ar intensa, qualquer movimento diferente causava tontura. Parar cansava, voltar a andar cansava, se baixasse a cabeça, ao levantá-la parecia que alguém estava espremendo o meu crânio. Mas a sensação se conseguir o topo é muito similar à de completar uma maratona. 

Ou seja, no final das contas acho que sim, subir esse vulcão teve muito mais relação com corridas do que imaginava. E fica a observação do título: o que corredor de montanha faz nas férias??? Sobe montanha...

3 comentários:

Rodrigo Fonseca disse...

Puta relato massa, Nishi!!! sensação de ter ido junto, muito bom! as fotos também ficaram muito boas, a do teu perfil no facebook tá muito maneira... e o frio, tem idéia da sensação térmica? Abraço, Frotinha

Ricardo Nishizaki disse...

Frotinha, segundo o Pedro, nosso guia, sensação térmica de uns 08 graus negativos. Sol o tempo inteiro, mas um vento razoável, que piorou na descida. De qualquer forma, nada tão absurdo, o problema era só não estar exatamente com roupas adequadas. Eu tava com uma camiseta de manga comprida, uma fleece leve e o corta-vento, além do lenço e do gorro. Não é muito, mas a parte superior do corpo até tava bem, embora o vento tenha feito misérias com o meu nariz. O problema foi estar com só uma meia de cano curto e o tênis. Um friiio no pé...

elis disse...

você sabe se divertir nas férias, viu! que aventura incrível!!!

muito bons o relato, o vídeo e as fotos! parabéns!